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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

De bike, yeah!

Pego na minha bike
Deixo-me levar por ela
Nas redes dava-lhe um like
É ela se que revela


Sigo a um ritmo rápido
Para trás vejo tudo distante
Esta cena é um bom hábito
Quem a inventou foi brilhante


A tentar fazer sentido
Com os pedais eu me amanho
Mas para tirar real partido
Não tens de seguir o rebanho


Comprar uma é valor seguro
Andar nela é motivo de orgulho
Usufruir de uma nova dinâmica
Agora com visão panorâmica


Meter rotações nos pedais
Definir a cadência a imprimir
Não é preciso nada de mais
Basta pedalar e partir


É uma forma de viver
É o que mais gosto de fazer
É um estilo de vida
É a minha melhor saída.

A rockabilly e a gótica

Lembrei-me de fazer um paralelismo entre duas das minhas bicicletas e duas mulheres. Comparar bicicletas com mulheres poderá parecer à primeira vista um exercício descabido, mas achei que seria engraçado e apeteceu-me.


Specialized Allez Steel - A rockabilly

É aquela mulher jovem mas madura, moderna mas de estilo retro, rockabilly ou pin-up pela sensualidade e erotismo, embora não muito voluptuosa. Apresenta toda uma dicotomia curiosa que lhe dá algum do seu charme. A cor vermelho sangue remete-nos facilmente para o batom que cobre os seus lábios ou mesmo para muitas das peças de roupa que denunciam as suas formas. É aquela mulher segura que sabe o que quer e embora aparentemente simpática e afável, não se deixa levar facilmente. Tem uma presença forte e não deixa indiferente aqueles que testemunham a sua passagem. Como qualquer mulher, deve ser tratada com um mínimo de tato e sensibilidade. Convém perceber a forma como se expressa para não esticar a corda de forma prematura e desnecessária. Apresenta algumas lacunas quando comparada com mulheres mais jovens e mais ligadas à tecnologia, mas não se deixa intimidar por isso. Pode não estar dentro dos parâmetros generalistas atuais, mas tem uma imagem intemporal e única, destacando-se pela simbiose perfeita entre beleza, caráter e simplicidade.


Globe Roll 1 - A gótica

É aquela mulher dura e desafiante e até sombria, que tem tanto de peculiar como de cativante, que ficamos sem saber como abordar, já que mostra muito pouco de si e daquilo que sente. Tem uma silhueta monocromática, simples e elegante. O preto é a cor dominante das suas vestes e o minimalismo é o princípio que rege a forma como se apresenta. Possui uma beleza menos explícita e mais extravagante. É uma das poucas que ainda segue o estilo gótico, tanto na sua aparência, como na sua atitude, introspetiva e obscura. É uma mulher cativante, sem dúvida. Nem que seja pelo desafio que representa relacionarmo-nos com ela. É igualmente exigente, firme e mordaz, que nos dá um retorno duro e brusco se agirmos de forma inapropriada. Mesmo considerando que é menos simpática que a sua colega rockabilly, quando tratada com assertividade e parcimónia é possível uma interação positiva, ao ponto de se criar uma relação duradoura e de uma certa dependência. Se calhar masoquismo é uma palavra demasiado forte, mas esta mulher, que não é exatamente conhecida por tratar bem os homens, tem um encanto ou um magnetismo qualquer que os atrai de forma inexplicável.


São duas mulheres lindas e atraentes, integras e cheias de caráter, cada uma no seu género e estilo, que me dão muito prazer. A minha relação com elas é tudo menos monogâmica. Mas é pacífica. E não podia ser de outra forma, já que para elas é indiferente, e por mim, definitivamente, não consigo resistir-lhes!

Bikes & Rimas

Trato por tu as ruas de PDL
Percorro-as a pedais
Com as minhas bikes
Tal como o faço em muitas outras na ilha de S. Miguel


É um estilo de vida
É um prazer
É uma liberdade única
Do melhor que se pode fazer


O trânsito, eu contorno
As filas, eu não componho
Chego rápido a todo o lado
Pela mão ou montado


Estacionar não é dor de cabeça
Prendo-a a um poste ou a um U invertido
A sério, sinto-me tão bem
É libertador e divertido


Ela leva-me ao mar
Vou à minha sessão de exercício
Ela leva-me sem parar
Pedalar é mesmo um vício


Nos CTT deixa correspondência
Na bagageira um saco de 5kg de aveia
A trepidar na habitual cadência
Lá vou eu com ela, de alma cheia


Máxima economia
Zero poluição
A bicicleta vai onde quero
Apenas gasta calorias
Está só do nosso lado a limitação


Seja ela qual for
É o veículo mais amigo
Simples e divertido
É com ela que quero ir ao meu lugar preferido


Rodas e pedais
Aqui está a receita para os teus males
Sim, não duvides
Estes são analgésicos reais


Quero pedalar para sempre
Quero pedalar em todo o lado
Quero ter as minhas companheiras de ferro
Sempre, sempre, ao meu lado!

Tecnologia a pedais

Sim ou não? Eh pá, não! Quer dizer, não é um não redondo, definitivo e inflexível, até porque depende da abordagem, do tipo de utilização e da própria tecnologia. Além disso, não gosto de fundamentalismos.

Se me perguntarem: mudanças eletrónicas? Eh pá, não! Não mesmo! Agora se me perguntarem: travões de disco numa bicicleta de estrada? Eh pá, sim! Lá está, é a minha abordagem.

Acredito que as mudanças eletrónicas sejam uma maravilha de utilizar, rápidas, silenciosas, eficazes, mas sinceramente, estar dependente de baterias e de carregamentos, mesmo que aquilo dure imenso… Depois tem um grau elevado de sensibilidade e complexidade quando comparado com um equipamento mecânico. E é tudo menos barato. Não é para mim!

Chateia-me a dependência que a tecnologia cria. É mais ou menos como aquela cena de estarmos no trabalho e o PC ir à vida e… para tudo! Se esta dependência existe não tem necessariamente de ser alargada para algo que acho que deve ser simples e descomplicado.

Quanto aos travões de disco, este equipamento em si não tem nada de inovador, a novidade apenas reside na sua adaptação à estrada. Polémicas à parte (lesões em caso de queda?!), acho que o incremento substancial ao nível do funcionamento e da segurança podem justificar a sua utilização.

Normalmente, quem é mais conservador e tradicional nos materiais empregues na construção de uma bicicleta não gosta muito de carbonos e afins. Às vezes brinco com isso, mas reconheço a mais-valia de materiais mais nobres. E aqui, claro, estamos a falar de elevada tecnologia. Agora por questões estéticas, custos e tipo de utilização não consigo arranjar justificação para ter um quadro em carbono todo XPTO, em vez do aço que estrutura a minha “estradeira”.

Para mim e de um modo geral, nas bicicletas, mais tecnologia implica mais cuidados, mais custos e mais chatices. E para chatices já me bastam todas as outras!

O rapaz da bicicleta!

Já não sou o rapaz que era há umas décadas atrás, mas existem momentos que me transportam para outros tempos, momentos únicos, onde a minha bicicleta era tudo para mim e o bairro onde andava era um mundo sem fim.
Um mundo onde não havia preconceitos nem preocupações, onde apenas existia diversão e liberdade sem limitações.
Hoje, dou por mim numa das minhas bicicletas a agir como o miúdo que já fui, a sentir aquilo que já tinha sentido, a satisfazer-me como poucos e com tão pouco. Aproveito, como antes, todos os momentos como se fossem únicos… E são!
As bicicletas cresceram, as fronteiras do bairro caíram, mas o rapaz que adorava andar de bicicleta, que fluía através da brisa, que inventava, e às vezes caía, é o mesmo...
A principal diferença é que agora, às vezes, custa-me sair, na altura apenas custava-me voltar. E ainda me custa. Depois de começar já não quero parar.
Incrível a capacidade de um objeto tão simples, não é? Sim, é material, e esse tem o valor que lhe queremos atribuir, mas num misto de saudosismo e orgulho, gosto da sensação que a bicicleta me permitiu e ainda permite sentir, gosto do efeito que produziu e que ainda produz em mim!

A hierarquia das ruas

Fomos feitos para andar de bicicleta? Não, não fomos. Fomos feitos para andar (a pé), para correr. Mas a bicicleta é um veículo bastante simples, adaptável, natural e prático que pode facilitar-nos bastante a vida. De facto, as distâncias tornam-se mais curtas, fáceis e prazerosas de percorrer. Mas somos seres insatisfeitos (e comodistas e vaidosos e…) por natureza e na busca da facilidade, da comodidade, no campo da mobilidade urbana, a bicicleta ficou relegada para segundo plano (para não dizer terceiro ou quarto!)

Criou-se uma hierarquia, a hierarquia das ruas, onde começamos por andar a pé, passamos para a bicicleta, talvez para uma mota e com toda a certeza para o automóvel. Idealmente este percurso fica concluído nos nossos primeiros 18 anos de vida. Andar a pé e de bicicleta na base, e o automóvel no topo, sendo que no topo ainda existem os topos do topo, mas nem vale a pena entrar por aí. O facto é que ninguém quer estar na base, é desprestigiante e pouco valorizado socialmente.

Infelizmente, com a busca incessante pela facilidade, comodidade e estatuto social, atafulhamos as ruas das cidades, tornamos a progressão lenta, desgastante, entediante e cara. Descaracterizamos as cidades. Poluímos muito e a vários níveis. Isso faz com que seja cada vez mais premente uma mudança, um regresso às origens, um regresso à base da pirâmide de uma hierarquia que não devia existir!

Mas a hierarquia não se manifesta apenas na opção de escolha, ela exprime-se na partilha das vias, onde o maior e mais rápido tem a supremacia, ou seja, mais direitos do que os mais lentos e pequenos (leia-se peões e bicicletas). Toda a circulação não motorizada é encarada como um empecilho à circulação desenfreada, onde cada um julga ter mais direitos, legitimidade e pressa do que os demais. Muitas vezes, esta hierarquia impõe-se à força toda:
- Se hoje lhe fizer uma razia pode ser que amanhã pense duas vezes e não me esteja a atrapalhar aqui à frente.
Sim porque uma pessoa adulta e discreta anda de bicicleta só em passeio e fora das vias de circulação ou simplesmente não anda. Até porque a andar de bicicleta apanha-se chuva, para além de cansar e até fazer transpirar… Para quê quando temos carros?! Disparate!

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