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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Isso das bicicletas é algo muito abrangente!

A sua amplitude é tanta que podemos ter em cima de uma bicicleta uma pessoa sedentária que se limita a sair com ela num bonito dia de sol, para dar uma curta volta à beira mar, e que mesmo assim eleva o seu ritmo cardíaco para lá do que é habitual, como também um atleta de alta competição 100% dedicado, que monta a sua bicicleta para treinar e competir como se não houvesse amanhã, e encara aquela "parede" impressionante como se fosse apenas mais uma chata reunião de trabalho!
E entre estes dois extremos ainda existem tantas diferenças, sejam físicas e técnicas, sejam de atitudes e formas de estar, que só quem está relativamente dentro do meio é que consegue alcançar!
Só para dar um exemplo, para vários familiares e amigos sou um gajo que exagera, que pedala demais, quase obcecado, quando na realidade o que faço, comparando com muita boa gente que por aí anda, é simplesmente ridículo!
E quem fala em número de quilómetros percorridos e na rapidez com que se fazem, fala na capacidade técnica de outros, que se atiram montanha abaixo ultrapassando todo o tipo de obstáculos a velocidades loucas, como se de uma rampa lisa se tratasse!
(Este texto está carregado de pontos de exclamação porque de facto as diferenças assim o exigem!)
Toda esta diferença que estou aqui a tentar explicar é visível mesmo sem fazer comparações com os outros. A mesma pessoa pode cavar um fosso tão grande entre aquilo que era e aquilo que é, logo que pedale com a determinação e a regularidade necessárias!
Dando mais uma vez o meu exemplo, quando voltei a andar de bicicleta fazia-o normalmente uma vez por semana, ao domingo, a partir do momento em que comecei a fazer “Indoor Cycling” no ginásio (3 vezes por semana), em pouco tempo a minha capacidade para pedalar passou a ser muito superior!
É certo que seria expetável, embora de uma forma mais gradual. Mas há ainda outro facto curioso. O meu ritmo era diferente, mas não tão diferente como um companheiro de pedaladas que com a mesma regularidade, em vez de fazer “Cycling” saía efetivamente para pedalar com a sua bicicleta!
De facto, existem muitas variantes e nuances que podem fazer e fazem a diferença, desde logo com a genética e a aptidão natural à cabeça. Gostar é essencial, tal como ter a capacidade psicológica para manter permanentemente o foco num determinado objetivo, apesar de todas as condicionantes e dificuldades, fazendo tudo para o conseguir atingir!
Há muito tempo que digo que a palavra-chave no ciclismo é desafio. Nesta equação não gosto da palavra sacrifício, mas como é óbvio, está implícita. Agora pode é ter vários níveis. E é normal que quanto mais se consiga suportar mais longe se chegará, se for este o desafio que se tenha decidido aceitar!
Mas a bicicleta como veículo democrático que é, e com todas as suas diferenças intrínsecas, continuará a aceitar, de igual forma, todos os que a queiram montar, sejam representantes dos extremos inferior e superior, sejam representantes de um tão vasto meio que esses mesmos extremos encerram!

Das motas às bicicletas - Fóruns, blogues e facebook

Comecei a escrever com mais frequência em fóruns online dedicados às motas, sendo a minha presença mais representativa no Fórum do Clube Motard de São Miguel. Foram muitos momentos de reflexão, argumentação e discussão, alguma acesa demais! Entretanto, com um grupo de amigos motociclistas fundamos o blogue Moto Açores, que mais tarde “internacionaliza-se” e passa a chamar-se Moto Azores. A blogosfera agradou-me sobremaneira e achei que era possível ter em simultâneo um blogue só meu. Foram vários até hoje, sempre com uma forte componente motociclista e musical, entre eles: Motas e Metal; As Minhas Motos; Motarte – Arte Sobre Rodas. Neste último, fiz a transição das motas para as bicicletas, para além de apresentar variadas situações que refletiam a minha vida na altura. As bicicletas passaram a concentrar muita da minha atenção ao contrário das motas. Foi o blogue com mais publicações e tráfego que já tive. Com a entrada no facebook e a quebra dos blogues em geral acabei por fechá-lo. Arrependi-me muitas vezes…
Depois de algum tempo sem uma plataforma fixa onde escrever criei um grupo no facebook dedicado às bicicletas – Eu Ando de Bicicleta em São Miguel, que marcou exatamente o dia em que tive a minha primeira experiência da bicicleta como meio de transporte, estávamos no primeiro trimestre de 2012. Pelo meio ainda tentei dinamizar o blogue "comunitário" Biklas com algumas publicações, entre outras avulsas aqui e acolá. Tudo isso deu-me um novo alento para escrever com regularidade, até que farto da utilização e do tempo que perdia no facebook, entrego a administração do grupo a um colega e abandono esta rede social. O problema é que tudo o que acontecia, acontecia no facebook... Voltei uns meses depois, aderi ao grupo e de pronto foi-me entregue a sua administração, que agora partilhava com outros colegas. A minha utilização desta rede social é muito pouco social, digamos assim. Dedico-me essencialmente ao grupo e acompanho as páginas relativas aos meus interesses. Pouco mais.
Bom, já com saudades da blogosfera, que passava agora por uma nova fase, e uma vez que prefiro de longe os blogues ao facebook, criei um blogue com o mesmo nome do grupo. Durou pouco. Mudei de plataforma, do Blogger para o Sapo. Criei outros, sendo que alguns nem chegaram a ver a luz do dia. Por fim, assentei num projeto com o nome Carreto Fixo. Era um blogue que espelhava as minhas várias experiências na escrita, e claro, a minha visão sobre as bicicletas. No entanto, tornou-se demasiado abrangente e com conteúdos muito divergentes. Assim surge este blogue – Bike Azores, exatamente para se dedicar essencialmente às bicicletas, já que estas continuam a representar uma das componentes mais fortes da minha vida. Desta feita, tudo o que tenho em arquivo relativo a estas será para aqui importado, inclusive diversos textos de outros tempos, dedicados às motas, recuperados de outros blogues e não só. Lá estou a alargar novamente o âmbito do blogue, mas pronto, são coisas mais antigas e acho que conseguem conviver, quando mais não seja para mostrar a transição que aconteceu, das motas para as bicicletas.
Resumindo, este blogue é uma forma de compilar praticamente tudo o que escrevi sobre a temática em causa e o que ainda tenho para escrever, assumindo assim a minha posição e partilhando-a com quem possa estar eventualmente interessado.

Bicicletas - Marcas, lojas e mercado

Passado que está o dia maior do consumo, onde alguns gastaram mais do que deviam, uma boa parte em inutilidades. Outros cometeram excessos alimentares, outros ainda fizeram fretes, fingindo ter gostado daquilo que receberam, mas que não vai servir para nada, a não ser preencher mais uma gaveta ou uma repartição da casa, ou até mesmo acabar no caixote do lixo.


Já agora, que se tenha gasto em bicicletas, em material ou em equipamento…


A propósito e com uma introdução tão pouco natalícia (tal como o atual espírito de Natal) apeteceu-me falar de uma temática algo sensível e que já queria ter abordado mais cedo, mas que nunca calhou. A minha opinião é apenas baseada na observação que faço, mais ou menos atenta, de tudo o que envolva bicicletas.


Marcas
Grande motivo de discórdia! A minha é sempre melhor do que a tua, mesmo que as diferenças não sejam assim tantas, à exceção do logótipo e nome que envergam. Todas puxam pelos seus galões, apresentando supostas soluções de vanguarda, técnicas únicas de moldagem e construção, mas na verdade e na prática, grosso modo, dividem muitas soluções, inspiradas umas nas outras ou não, e partilham componentes, portanto, não se comportam assim de forma tão distinta como isso! Acredito que todas as marcas são boas, podem é estar em patamares diferentes e terem por isso diferentes objetivos ou alvos específicos, sendo que o objetivo principal será sempre vender. Pessoalmente, gosto de todas as marcas de bicicletas, mas como é óbvio, umas mais do que outras. Mais, recentemente tenho-me surpreendido com uma daquelas marcas pouco prováveis, portanto, esse é um departamento que nunca está fechado. O que é certo hoje, amanhã não podia estar mais errado.
Uma marca pode levar-nos a uma loja…


Lojas
E uma loja pode levar-nos a uma marca. As lojas presentes na ilha de São Miguel já proporcionam uma oferta bastante razoável, tanto ao nível das bicicletas, como dos componentes. Temos mais escolha e diversidade. Se são as suficientes ou se serão demais, não faço ideia, o certo é que nestas coisas a seleção natural tem tanto de assertiva como de impiedosa, jogando o tempo como variável. As rivalidades das marcas transpiram para a rivalidade entre as lojas, mas se as primeiras, às vezes, até assentam em disputas peculiares e engraçadas, aqui, embora com um objetivo comum, valoriza-se demasiado a palavra concorrência e criam-se muros que endurecem o discurso e impedem o relacionamento. Como em tudo haverão exceções. Incontornável é o facto de que quem tiver bons produtos, souber trabalhá-los e melhor chegar ao público, mais irá vender e fidelizar clientes. Quando as coisas correm menos bem, a culpa é sempre nossa, nunca dos outros.
As lojas trabalham para o nosso mercado…


Mercado
Mercado que é pequeno, preconceituoso, nem sempre, mas cada vez mais conhecedor. Onde se faz sentir o efeito rebanho ou grupal, o que não é nem mau nem bom, é apenas aquilo que é. De facto, pelas suas caraterísticas exige esforço e adaptação de quem o trabalha, para ir ao encontro daquilo que quer, as mais atuais tendências e modas, sob pena de começarem a perder terreno. Exige diversificação e boa comunicação, seja na relação cara-a-cara, seja no relacionamento virtual, onde se estimulam comportamentos, se fazem apresentações e apelos, se criam eventos e laços. Diria que contornar a sua pequena dimensão será um dos maiores desafios e este só poderá ser superado com persistência, consistência e criatividade, para além dos atributos já acima enunciados.
Sim, uma carga de trabalhos, presumo.

Bicicleta no chão!

Chegamos, paramos as bicicletas. Tudo tranquilo, convívio, animação, de repente...
Catrapum!!!
Aquele som tem tanto de inconfundível como de revelador...
Caiu uma bicicleta!
Oxalá não seja a minha! - pensamos, enquanto nos dirigimos em agonia para o local do "crime".
A solidariedade é muito bonita e tal, mas antes a dos outros do que a nossa...
É mesmo assim!
- Foi a tua! - São as palavras proferidas pelo "mensageiro da desgraça"!
Merda! (ou pior) - É a palavra sugerida pelo nosso cérebro que não chega a sair por ter ficado entalada com a agonia!
Alguém já a levantou e dita a sentença do costume - Não tem nada!
A mensagem é ignorada, a nossa concentração já está toda na visão, que percorre o "corpo" acidentado como se fosse Raio-X!
Sai a lista dos estragos que se tenta minimizar em esforço.
Podia ter sido pior! - Diz interiormente o nosso lado conformado.
Mas podia não ser nada se não tivesse caído! - Surge de seguida o pensamento inconformado.
Tenta-se esquecer, tenta-se ignorar, só o tempo poderá ajudar, mas aqueles riscos vão ficar lá sempre para nos atormentar! (Até rima!)


Esta é uma descrição um tanto ou quanto exagerada. Pessoalmente, hoje em dia, tenho uma capacidade de aceitação bastante mais desenvolvida. As situações acontecem, às vezes podem ser evitadas pela prevenção, outras são tão insólitas que pouco se poderia ter feito.
O processo é: Cair, levantar, relativizar, seguir em frente, minimizar, ou simplesmente, ignorar.
Mesmo assim e dando uma de masoquista, mais uma vez recorro aos préstimos do Zabela, com uma descrição de um episódio bastante ilustrativo, datado de 19/10 e que dá pelo sugestivo nome de "As lágremas erim c'ma cagalhãs!"


As lágremas erim c'ma cagalhãs!
Olá petchenas e rapazins, tude bem?
A minha crida besuga sofrê um acident!
Nã sê se fou dos ciúmes ou lá que fou, mas a corina pregou-me uma tesa de marreta!
Vou contá: Entã fu ao préde do Carlins Bogangue buscá batata doce qu'ele me dê. Parê a besuga incostada nos abrigues d'incense. Quande tavames a inchê a saca c'a batata ouvimes um trambolhã. Ê fu logue a corrê já pinsande no pió. Cheguê ao pé dos abrigues e...
- Eh Carlins, a besuga desaparecê!!!
- Eh hôme, c'mé isse?
- Tou-te a dizê...
- Calma, tá ali... Ali em bâxe o pé dos oraçalêres...
- Dos oraçalêres?
- Sem, paraste-la bim mal parada!
- Ela tava bim incostada nos abrigues!
- Tava cá nada! Se tivesse nã tinha caíde lá em bâxe!
- ... A minha rica bcecléte caí lá em bâxe!
Quande cheguê o pé dela e vi os estragues, nã aguentê...
As lágremas correrim-me c'ma cagalhãs p'la cara abâxo!
Bêjes e abraces.
Zabela & Besuga: É uma espécie de rubrica do blogue, onde o Zabela (personagem fictícia que caricatura um homem simples da ilha de São Miguel, que se desloca para todo o lado com a sua bicicleta) escreve tal como fala, com um carregado sotaque micaelense, e a Besuga é exatamente a sua fiel e amada bicicleta, companheira crónica de inúmeras aventuras.

Circuito BTT Permanente – Parque Urbano PDL

Atalhe pra bceclétes
Olá petchenas e rapazins, tude bem?
Ouvi na televisã, da boca do presedente da associã das bceclétes, que iem pedi à cambra que deixassim fazer um atalhe pra bceclétes no parque da cedade, mas pa ficá sempre lá.
Même que aquele parque tá precisande disse e de outras cousas que leve hômes, muiés e petchenes a irem lá.
É que aquile é um bele parque e tenhe pra mim que está sempre às moscas, lá!
Vames lá avançá com isse que é pra mim e pra besuga irmes andá pra lá.
(Alguém reparou que escrevi quâtre linhas todas a acabá im lá? - Poeta... Açoriane!)
Bêjes e abraces.
Zabela & Besuga: É uma espécie de rubrica do blogue, onde o Zabela (personagem fictícia que caricatura um homem simples da ilha de São Miguel, que se desloca para todo o lado com a sua bicicleta) escreve tal como fala, com um carregado sotaque micaelense, e a Besuga é exatamente a sua fiel e amada bicicleta, companheira crónica de inúmeras aventuras.


Bom, e foi assim que no dia 06 de outubro o Zabela dava conta desta excelente notícia, que se veio a confirmar mais tarde durante a Gala anual da ACA – Associação de Ciclismo dos Açores. O Parque Urbano, um espetacular espaço na cidade de Ponta Delgada, em breve passará a contar com um circuito permanente para a prática de BTT.
Se esta iniciativa é muito importante para a ACA no que toca à formação e à logística para a realização de eventos, para os amantes das bicicletas e do BTT, é uma excelente oportunidade para a prática da sua modalidade de eleição, desta feita num local muito acessível com todas as condições para o efeito.
É igualmente importante para este espaço, que embora tão aprazível e acessível à população, não é visitado como seria de esperar, talvez por falta de atrativos. Este circuito pode fazer alguma diferença neste sentido, mesmo para o público em geral, já que estão previstas várias alternativas, conforme o gosto e o grau de dificuldade que se pretenda.
Até agora, eram uns jovens voluntariosos que de sachos e pás em punho personalizavam a seu gosto a zona não ajardinada no topo do parque, mas em breve haverão possibilidades para todos, sem haver necessidade de arregaçar as mangas, nem ganhar calos nas mãos, sem ser através dos punhos da bicicleta.
Espera-se utilização e preservação do que será feito e colocado ao dispor. Por mim, aguardo com expetativa a abertura deste circuito, do qual serei/seremos “cliente(s) frequente(s)” com certeza.

Um fim de semana, dois passeios de bicicleta

Já passei por várias fases. Umas em que ia a todos os eventos ligados às bicicletas, outras em que simplesmente evitava estes ajuntamentos.
Ultimamente, tenho participado em várias iniciativas, já que estou numa fase em que, tendo possibilidade e não tendo nada mais importante para fazer, vou para não me arrepender depois.
A quadra natalícia sugere alguma comemoração e convívio. Para manter a tradição, na sexta-feira a Decathlon apresentava um passeio noturno pelas ruas de Ponta Delgada e arredores, e no domingo a CC Specialized propunha uma ida matinal às Furnas.
O passeio de sexta-feira, simples e acessível na sua base, acabou por ser bastante significativo, já que pela primeira vez estivemos (a família) todos presentes. Apenas uma atenção especial com o meu filho, pois era a sua estreia em passeios do género. Para além de lhe alertar para alguns cuidados a ter quando se anda em grupo e de lhe dar uma mãozinha nas subidas, também tive de lhe refrear o ânimo nas descidas. Mas correu tudo bem e foi do agrado de todos. É o que interessa.
No domingo, a coisa já não era tão pacifica. A família não poderia integrar o grupo e eu próprio estava com dúvidas se o deveria fazer. Digamos que ainda ando a testar limites depois de estar limitado. Fui e não me arrependi, até pelo contrário, e nem mesmo o tempo meio ranhoso arrefeceu a minha vontade. Senti-me sempre bem, se é que é possível alguém sentir-se bem a subir para a Mata Dr. Fraga ou até mesmo a subir as Pedras do Galego, que tanto gozo me dá descer. Sim, ao contrário do grosso do grupo regressei pelo lado Norte, curiosamente, a primeira vez que o faço. O regresso foi aligeirado pela companhia de um parceiro que não sei o nome?!

O outro lado...

Há situações em que se esbate boa parte do encanto e do charme de pedalar uma bicicleta relativamente recente, mas de conceito clássico, de inspiração noutros tempos.

Mesmo tendo como princípio que a opinião dos outros a mim não me diz respeito, é inegável que fico satisfeito quando alguém se dá ao trabalho de me felicitar e transmitir que acha a minha Allez Steel uma bicicleta especialmente bonita, inclusive pessoas com quem me cruzo por acaso e que não conheço de parte nenhuma.
Sem falsas modéstias, acho esta minha bicicleta de estrada em liga de aço encantadora. Mas (há sempre um mas…), as bicicletas não vivem só da estética, da diferença e do encanto!
Quando acedo participar num evento dedicado a bicicletas de estrada, onde a Allez estará lado a lado com algumas das mais recentes bicicletas, onde reina modernidade, tecnologia, leveza e eficácia, sei que estou logo, e sempre, em desvantagem.
Colocando de lado formas físicas e capacidades pessoais, o facto é que não sendo tudo, nem o mais importante, a bicicleta em que se vai montado importa, claro, mais ainda quando se está a falar em diferenças tão substanciais.
Ora bem, por trás daqueles tubos finos em vermelho vivo e dos periféricos exemplarmente cromados, a Allez acusa na balança estar demasiado próxima dos 13kg! Os seus manípulos de velocidades presentes no tubo diagonal escondem grande curso e imprecisão de acionamento, para já não dizer que é tudo menos eficaz e rápido ter de tirar as mãos do guiador e levá-las tão longe para acionar a velocidade pretendida, muitas das vezes quando mais precisamos delas. Conservadora é também a sua transmissão. Conservadora? Sim, também, mas é menina para merecer outros adjetivos menos simpáticos e com a mesma terminação, como demolidora, trituradora! Desta transmissão fazem parte dois dos componentes que são dos meus maiores inimigos em todo o conjunto – uma cassete de 8 carretos, em que o menor tem 12 e o maior tem 26 dentes! E um pedaleiro em que o prato pequeno tem 39 e o grande 52 dentes! As rodas são básicas e de entrada de gama, aliás como todos os seus componentes.
Isso do “o que importa é o ciclista não é a bicicleta” e “os que vão lá à frente também sofrem”, diz-me pouco ou nada, menos ainda quando quem o diz monta uma grande máquina!
Esta não é uma missiva de lamentação ou justificação, é apenas um texto que dá conta do outro lado. O outro lado de uma opção que tem tanto de consciente como de pouco óbvia. Uma opção que só por si apenas me impediu uma possível participação num par de situações. Uma opção que apesar das dificuldades impostas, e não são poucas, é a prova que as maiores limitações não têm origem externa.
Todo esse outro lado pesado, literalmente, não impedirá a minha presença, algo apreensiva mas descomprometida, nos eventos que achar convenientes, mesmo que isso implique consideráveis níveis de esforço e sofrimento por um lado, tal como, vontade e determinação por outro. Logo que os meus interesses não choquem demasiado com os dos outros (não quero ser empecilho para ninguém).
Cada evento é uma batalha a dois, onde, ora jogámos como um só contra o ambiente circundante, ora jogámos um contra o outro, eu e ela. A Allez impõe as suas armas à força, eu defendo-me e contra-ataco como posso. Até agora tenho levado a melhor, mas se eventualmente a sorte mudar, posso sempre alegar que fui legitimamente levado pelo seu encanto!

 

allez steel.jpg

Sem mudanças 2

A opção mudança única é voluntária. Pode ser algumas vezes condicionada por questões práticas, mas é sempre voluntária. Ter outras opções e escolher deliberadamente esta, é algo que nem sempre é fácil perceber, já que maiores níveis de exigência e condicionantes estão garantidos à partida.
Se calhar esta opção é tomada exatamente por isso. Por saber que desde logo, independentemente de vir a adaptar o meu percurso, a dificuldade estará mais presente. Sim, é um objeto que exige outra atitude, mas também não é nada do outro mundo. E nem sempre temos de escolher aquilo que é mais óbvio, cómodo e eficiente. É a célebre dicotomia razão vs. paixão. E a bicicleta sem mudanças é um conceito do qual gosto muito!
Não me vejo fazer certas coisas com ela hoje, mas também já faço outras que não me via fazer no passado. E tudo aconteceu com naturalidade. Aconteceu simplesmente porque me dispôs fazê-lo. Aconteceu porque quis. Assim tem sido e vai continuar a sê-lo, sem prazos nem obrigatoriedades, já que de doses maciças de ambição não padeço.
Querer andar sem mudanças é tão legítimo como outra coisa qualquer. Não é melhor, nem pior, é simplesmente diferente. E para mim, ser diferente faz toda a diferença!
É essa caraterística diferenciadora que me cativa, tal como a componente desafiante. Claro que com outra bicicleta conseguiria ir mais cómodo, mais longe e mais rápido, mas lá está, não seria a mesma coisa.
O desafio e a diferença presentes proporcionam experiências e sensações únicas, e promovem significativamente a relação homem/máquina, com maior acuidade, maior concentração, maior sensibilidade. Poderá parecer um paradoxo falar em sensibilidade, quando estamos a lidar com algo que pode ser bastante bruto!
A linha entre o desafio e o sacrifício por vezes não é bem percetível, até porque o segundo faz parte do primeiro, mas a quantificação do sacrifício e os imponderáveis internos e externos inerentes à minha realidade, levaram-me a afastar do mais radical carreto fixo. Mas, por isso mesmo, passei a usufruir muito mais de uma bicicleta, que pela ausência de mudanças, apesar da sua roda livre, continua a ser desafiante quanto baste e a requerer uma envolvência única.

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