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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

A Globe e as vacas

Toda a gente sabe que cá as vacas são mais do que muitas. Com tudo o que isso acarreta…
Mas não falemos de coisas menos positivas. As vacas fazem parte da nossa paisagem. São uma das nossas imagens de marca. Não que as caraterísticas das ilhas não se destaquem só por si, mas as vacas acentuam a nossa imagem rural e pitoresca.

 

roll_vacas.jpg

  Estas parecem ter gostado da Globe!

Volta ao concelho, sem mudanças!

O prometido é devido, já dizia Rui Veloso na canção. Não foi uma promessa, mas anunciar as coisas publicamente motiva a sua concretização. Ora então, a ideia era fazer a volta ao concelho de Ponta Delgada começando pelas freguesias a Norte (nunca tinha feito, pelo menos na versão tradicional), com a minha bicicleta sem mudanças – Globe Roll1.
Apenas um pouco de apreensão pela novidade, que se veio a revelar infundada. Garrafa de água de 33cl no jersey, já que esta bicicleta não permite o seu transporte no quadro, e chave de bocas de 15mm na bolsa de selim, não fosse ter algum furo e precisar tirar uma roda. Estavam resolvidos os constrangimentos iniciais.
Normalmente, não faço distâncias tão grandes com a Roll, já que é uma bicicleta mais exigente, lenta e limitada, mas para este tipo de volta mais plana adapta-se minimamente. Curiosamente, na versão carreto livre consegue ser mais confortável do que a Allez. A volta correu melhor do que estava à espera, tanto que no centro de Ponta Delgada recusei boleia, já que ainda estava perfeitamente disponível para fazer os restantes quilómetros que me separavam do ponto de partida.
Agora tenho de fazer o percurso neste sentido com a bicicleta de estrada, para verificar as diferenças de forma mais concreta, tanto do percurso como da bicicleta… Ou então isso não passa de uma desculpa para voltar ao lado Oeste da Ilha…

 

roll_mosteiros.jpg

Sem mudanças 2

A opção mudança única é voluntária. Pode ser algumas vezes condicionada por questões práticas, mas é sempre voluntária. Ter outras opções e escolher deliberadamente esta, é algo que nem sempre é fácil perceber, já que maiores níveis de exigência e condicionantes estão garantidos à partida.
Se calhar esta opção é tomada exatamente por isso. Por saber que desde logo, independentemente de vir a adaptar o meu percurso, a dificuldade estará mais presente. Sim, é um objeto que exige outra atitude, mas também não é nada do outro mundo. E nem sempre temos de escolher aquilo que é mais óbvio, cómodo e eficiente. É a célebre dicotomia razão vs. paixão. E a bicicleta sem mudanças é um conceito do qual gosto muito!
Não me vejo fazer certas coisas com ela hoje, mas também já faço outras que não me via fazer no passado. E tudo aconteceu com naturalidade. Aconteceu simplesmente porque me dispôs fazê-lo. Aconteceu porque quis. Assim tem sido e vai continuar a sê-lo, sem prazos nem obrigatoriedades, já que de doses maciças de ambição não padeço.
Querer andar sem mudanças é tão legítimo como outra coisa qualquer. Não é melhor, nem pior, é simplesmente diferente. E para mim, ser diferente faz toda a diferença!
É essa caraterística diferenciadora que me cativa, tal como a componente desafiante. Claro que com outra bicicleta conseguiria ir mais cómodo, mais longe e mais rápido, mas lá está, não seria a mesma coisa.
O desafio e a diferença presentes proporcionam experiências e sensações únicas, e promovem significativamente a relação homem/máquina, com maior acuidade, maior concentração, maior sensibilidade. Poderá parecer um paradoxo falar em sensibilidade, quando estamos a lidar com algo que pode ser bastante bruto!
A linha entre o desafio e o sacrifício por vezes não é bem percetível, até porque o segundo faz parte do primeiro, mas a quantificação do sacrifício e os imponderáveis internos e externos inerentes à minha realidade, levaram-me a afastar do mais radical carreto fixo. Mas, por isso mesmo, passei a usufruir muito mais de uma bicicleta, que pela ausência de mudanças, apesar da sua roda livre, continua a ser desafiante quanto baste e a requerer uma envolvência única.

Sem mudanças 1

Tenho as saídas rotinadas com a minha bicicleta sem mudanças. Que mesmo já não se apresentando no modo carreto fixo, não deixa de ser no mínimo curioso!
Das bicicletas que tenho disponíveis para os passeios semanais, esta seria a visada no que toca à maior limitação de utilização, no entanto, tem sido a eleita na hora de ir para a estrada.
Claro que a este facto não será alheio o tipo de volta que faço, mas mesmo assim, a bicicleta de estrada seria uma opção mais previsível.
Já falei várias vezes no desafio de andar numa bicicleta com estas caraterísticas e até dos seus constrangimentos, mas há um apelo que não consigo explicar, que não me faz hesitar na altura de a tirar do suporte.
Talvez o seu encanto passe mesmo por aí, por ser mais difícil e assim uma opção menos óbvia. Por todas as suas caraterísticas, destacando a sua imagem distinta e irreverente.
Aos seus comandos sinto-me bem, sinto-me diferente. E não estou a falar de caganças de quem faz questão de ter uma extravagância com o objetivo de impressionar os outros.
Esta bicicleta é simples na sua conceção, para alguns até um retrocesso desnecessário. Para mim, tem tudo o que é preciso, mesmo tendo menos que as outras, ao ponto de ser recorrentemente a escolhida.
De facto, menos pode ser mais ou simplesmente aquilo que é, exatamente o que me basta!

A rockabilly e a gótica

Lembrei-me de fazer um paralelismo entre duas das minhas bicicletas e duas mulheres. Comparar bicicletas com mulheres poderá parecer à primeira vista um exercício descabido, mas achei que seria engraçado e apeteceu-me.


Specialized Allez Steel - A rockabilly

É aquela mulher jovem mas madura, moderna mas de estilo retro, rockabilly ou pin-up pela sensualidade e erotismo, embora não muito voluptuosa. Apresenta toda uma dicotomia curiosa que lhe dá algum do seu charme. A cor vermelho sangue remete-nos facilmente para o batom que cobre os seus lábios ou mesmo para muitas das peças de roupa que denunciam as suas formas. É aquela mulher segura que sabe o que quer e embora aparentemente simpática e afável, não se deixa levar facilmente. Tem uma presença forte e não deixa indiferente aqueles que testemunham a sua passagem. Como qualquer mulher, deve ser tratada com um mínimo de tato e sensibilidade. Convém perceber a forma como se expressa para não esticar a corda de forma prematura e desnecessária. Apresenta algumas lacunas quando comparada com mulheres mais jovens e mais ligadas à tecnologia, mas não se deixa intimidar por isso. Pode não estar dentro dos parâmetros generalistas atuais, mas tem uma imagem intemporal e única, destacando-se pela simbiose perfeita entre beleza, caráter e simplicidade.


Globe Roll 1 - A gótica

É aquela mulher dura e desafiante e até sombria, que tem tanto de peculiar como de cativante, que ficamos sem saber como abordar, já que mostra muito pouco de si e daquilo que sente. Tem uma silhueta monocromática, simples e elegante. O preto é a cor dominante das suas vestes e o minimalismo é o princípio que rege a forma como se apresenta. Possui uma beleza menos explícita e mais extravagante. É uma das poucas que ainda segue o estilo gótico, tanto na sua aparência, como na sua atitude, introspetiva e obscura. É uma mulher cativante, sem dúvida. Nem que seja pelo desafio que representa relacionarmo-nos com ela. É igualmente exigente, firme e mordaz, que nos dá um retorno duro e brusco se agirmos de forma inapropriada. Mesmo considerando que é menos simpática que a sua colega rockabilly, quando tratada com assertividade e parcimónia é possível uma interação positiva, ao ponto de se criar uma relação duradoura e de uma certa dependência. Se calhar masoquismo é uma palavra demasiado forte, mas esta mulher, que não é exatamente conhecida por tratar bem os homens, tem um encanto ou um magnetismo qualquer que os atrai de forma inexplicável.


São duas mulheres lindas e atraentes, integras e cheias de caráter, cada uma no seu género e estilo, que me dão muito prazer. A minha relação com elas é tudo menos monogâmica. Mas é pacífica. E não podia ser de outra forma, já que para elas é indiferente, e por mim, definitivamente, não consigo resistir-lhes!

Rolar à chuva

Existe a ideia que para fazer um passeio de bicicleta, idealmente deve estar um bonito dia de sol. E portanto, a altura preferencial para fazê-lo deverá ser no verão. Bom, eu diria que nem para passear calmamente com a família na marginal quero um dia de sol, nesta altura do ano! Só mesmo em condições muito particulares é que isso corresponde à realidade... Porque de resto, sempre que o sol tem possibilidade de mostrar as suas capacidades traz consequências e não são propriamente positivas. Desde logo o nosso corpo ressente-se. Fica rapidamente maçado e o cansaço surge naturalmente.
As alturas do ano em que mais gosto de andar de bicicleta é na primavera, no outono e no inverno. Nestas alturas é perfeitamente possível beneficiar de excelentes dias com temperarutras amenas , mas também gosto de dias menos bons. É verdade que o vento é chato, a não ser pelas costas, mas que prazer me dá andar à chuva! (Então de BTT isso ainda ganha outra dimensão!)
Foi o que aconteceu ontem. Manhã de aguaceiros e sem vento incomodativo. Estava dado o mote para tirar a “fixie” da parede e ir divertir-me. Foi uma estreia conjunta à chuva… Pacífico!

Carreto Fixo

Andar numa bicicleta de carreto fixo é sempre um desafio. Já não andava com a minha há muito tempo.O facto é que estive fisicamente impedido e quanto ao regresso... Estava com medo!
Quem já andou numa bicicleta de carreto fixo sabe que têm vontade própria. São exigentes. Rudes e inconsequentes na forma de reagir. Não admitem erros e fazem pagar por eles sem parcimónias. São intimidantes!
Por outro lado, são incrivelmente simples na sua conceção e deliciosamente desafiantes!
Hoje voltei a andar nela. Inesperadamente demo-nos todos bem. Eu, ela, o meu joelho... Uma hora a pedalar consecutivamente, literalmente!
Cheguei algo moído, mas muito satisfeito.
A verdade é que adoro esta bicicleta!

Mudança única e carreto fixo!

A abordagem que faço às bicicletas tem-me levado a afastar das soluções tecnologicamente evoluídas, da competitividade, dos elevados custos, da elevada eficácia dos componentes e de todo o conjunto. Estou sim, mais próximo do básico, de uma produção mais conservadora, simples, económica e de um estilo mais retro, mantendo os níveis de qualidade e de eficiência adequados aos meus objetivos e necessidades.
Há algum tempo que tencionava adquirir uma bicicleta sem mudanças e de carreto fixo. Tanto pelo estilo e simplicidade do conceito, como pelo desafio de condução inerente. Não digo que seja como aprender a andar de bicicleta de novo, mas é necessário rever vários hábitos há muito interiorizados. Também não vou negar que me dá um certo gozo ser mais uma vez diferente e pioneiro.
Mas este não foi um objetivo de concretização fácil. Implicou algum tempo de pesquisa, de seleção e ponderação. Considerei várias opções, entre propostas mais económicas, personalizadas e de série. Confesso que desde o início tinha preferência por um dos produtos da marca do “S” rasgado, mesmo que no caso não o ostente, acabando mesmo por comprar uma Specialized/Globe Roll 1, ao que não será alheia, uma vez mais, a postura da empresa representante local da marca.
Se calhar posso ser suspeito para emitir tal opinião, mas a estética da Roll é simplesmente arrebatadora! A solução monocromática onde o preto brilhante é a cor eleita e todo o visual minimalista e espartano proporcionado pelos finos tubos em aço (Cr-Mo) e pela ausência de componentes supérfluos, dão-lhe atitude e não lhe deixam passar despercebida.
A Roll possui um cubo traseiro “flip-flop”, ou seja, tem de um lado um carreto fixo e do outro um livre, que permite passar de “fixed gear” a “single-speed”, ou vice-versa, num simples rodar de roda. A minha saiu da loja na configuração “fixie”, apenas com o travão da frente instalado. A ideia é desenvolver capacidade para a dominar assim e para fazer “skids”, ou seja, a técnica de travagem em que se bloqueia a roda traseira com a paragem voluntária dos pedais. Estou em condições de dizer que não é tão fácil como parece, embora já tenha conseguido esboçar alguns “skids”, ainda que muito tímidos e inseguros.
Desde logo não gostei dos pedais com clip e fitas e foram prontamente substituídos por pedais de encaixe. É curioso constatar que neste momento a forma mais natural de pedalar envolva pedais de encaixe!
As novidades começam logo no arranque, com tendência para persistir - «olha, um pedaleiro com vontade própria!». A relação de transmissão (42X17) é adequada para uso citadino, para rolar em plano e até para subidas com inclinação moderada, mas o que mais me custou foram mesmo as descidas. Facilmente os pedais atingem uma rotação demasiado elevada o que acaba por ser exigente fisicamente, até porque a tendência é começar a saltitar sobre o selim, o que associado à pouca velocidade atingida fez-me desejar mais do que uma vez que as descidas em causa acabassem depressa.
Também convém não esquecer que não dá para descansar as pernas. Enquanto a bicicleta estiver a andar a pernas estão em movimento, até porque ela faz questão de nos informar disso da forma mais brusca possível. Tal como é preciso atenção à sua inclinação nas curvas, já que aqui não se ajeitam pedais quando nos dá jeito. De resto é possível (imperativo) abrandar a marcha fazendo força com as pernas no sentido inverso da mesma, até porque o travão da frente, por si só, nem sempre é suficiente.
Pormenores à parte, os dias têm sido curtos para desfrutar tudo o que a minha Globe Roll 1 tem para oferecer… E agora até já posso dizer com legitimidade e orgulho:
«My legs are my gears»

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