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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Choque tecnológico!

Motivado por toda a azafama e animação que se vive por cá com mais uma edição do Azores Airlines Rallye lembrei-me de uma situação. Não têm grande (nenhuma) relação, mas pronto.
Um dia entrei num stand de automóveis. Enquanto o vendedor, para me cativar, ditava orgulhosamente uma extensa lista de extras que um modelo em especial trazia, com certeza estaria longe de pensar que eu, mentalmente, a cada extra atribuía uma classificação. Curiosamente, sempre a mesma para todos eles – Fonte de problemas!
A falta de paciência e interesse não me permitiu perguntar se não tinham apenas o carro? Sem as “mariquices”? Sim, básico, simples, sem nada!
Já deve ter dado para perceber que, no que toca a algumas inovações e à tecnologia aplicada em certos ramos sou um bocado avesso. Tradicionalista, antiquado, chamam-me o que quiserem, não me venham é impingir tecnologia da moda, embrulhada com a capa da utilidade, para fomentar desejos consumistas, como se a minha vida dependesse disso!
Vivo muito bem sem estas “mariquices”! Aliás, até prefiro não ter de pagar por elas, que é da maneira que não me vão distrair, nem chatear no futuro. E ainda poupo dinheiro.
As minhas bicicletas são todas recentes, a mais “antiga” é de 2009. É um bocado ridículo usar esta palavra para adjetivar uma bicicleta que vai fazer oito anos, mas atualmente é mais ou menos assim que as coisas funcionam. Nem rodas 29 tem! Paradoxalmente, é a única com uma estrutura em alumínio, travões de disco hidráulicos e suspensões a ar. Ui!
As outras têm todas quadros de aço e componentes básicos de entrada de gama. São simples e baratas. E, por incrível que pareça, funcionam!

Pensamentos a pedais

Agora que penso nisso:

Agrada-me muito ter incluído a bicicleta em algumas das minhas principais rotinas diárias. Agrada-me ter conseguido libertar-me do automóvel e de todo o peso que representava, nestas mesmas rotinas;

Agrada-me verificar que são várias as pessoas que fazem o mesmo do que eu nos locais que frequento. Agrada-me constatar que inspiro algumas pessoas neste sentido, da mesma forma que outras me inspiram;

Agrada-me ser saudado e felicitado por pessoas nos seus automóveis, mesmo que ainda não tenham tido coragem de dar aquele passo para se libertarem deles;

Agrada-me ver pessoas a melhorar a sua qualidade de vida. Agrada-me ver as pessoas que fazem isso com orgulho e determinação. Agrada-me ver pessoas que seguem o caminho da simplicidade;

Agrada-me constatar que a bicicleta faz parte da vida destas pessoas, como faz parte da minha, para além da componente lúdica/desportiva. Agrada-me ver mais bicicletas, com pessoas sem licra, nelas montadas;

Agrada-me ver pessoas que não precisam de ciclovias para andar de bicicleta na cidade. Agrada-me constatar que estas pessoas veem a sua cidade através de outra perspetiva, mais livre e aberta;

Agrada-me continuar a defender esta vertente prática e funcional da bicicleta em ambiente urbano…

Independentemente se isso agrada aos outros ou não!

Clássico vs. Moderno… Ou clássico e moderno tudo misturado!

A única forma que tenho de quantificar os meus passeios de bicicleta é através da sua duração. O que é chato e limitado, já que não posso partilhar com ninguém, todos os pormenores dos mesmos e assim provar que aqui este menino, em cima de uma bike, não é para brincadeiras! Seja lá o que isso quer dizer…

Não tenho ciclo-computadores, nem muito menos aparelhos GPS todos pipis que registam tudo e mais alguma coisa. E que custam os olhos da cara! Nem sequer utilizo aquelas aplicações no telemóvel, até porque mesmo que quisesse não podia, já que o meu telemóvel não as suporta. Sim, é daqueles que só fazem e recebem chamadas!

Mas não se pense que sou assim tão básico. Um dia perdi a cabeça e comprei um monitor de frequência cardíaca de pulso. Em promoção, não era! Batimentos, zonas de treino, calorias e estas cenas todas. Sou moderno ou não sou?

Pronto, vá lá, acho que já ninguém usa isso e confesso, eu próprio nem sempre o utilizo… Ou melhor, levo o aparelho no pulso, até porque preciso do relógio, mas o sensor fica em casa. Já agora, enerva-me um bocado quando ele está no modo de treino e não consigo ver as horas e tenho de andar a fazer contas…

Já tentei ver as horas pelo sol, mas primeiro, não dá muito jeito estar a andar de bicicleta na bisga a olhar para o céu, segundo, isso cá está sempre nublado, e terceiro, tendo em conta as duas razões anteriores e não dominar assim tão bem a técnica do relógio solar, eleva demasiado a margem de erro. E chegar a casa tarde, não ter a mesa posta e já não estar ninguém à nossa espera é aborrecido. Principalmente a parte de não ter a mesa posta!

Tenho uma bicicleta sem mudanças. Heresia! E com o carreto fixo. E sem travões. E não é por ter qualquer problema com a obesidade ciclística. Tenho porque gosto. Para alguns, porque sou parvo! Mas insisto, é simplesmente porque gosto. Quanto à parte de não ter travões é mentira, mas também só tem um na dianteira e não trava assim tanto como isso. Tenho aqui um conjunto de perna e meia que resolve muito do trabalhinho necessário. Vamos lá ver!

O material da maioria das minhas bicicletas é o aço. Uns melhores do que outros. Apenas a renegada BTT é de alumínio. M4 dizem… Não sei o que é! Carbono? Também não sei... Ouvi dizer que era plástico, mas em bom, não sei… Não me censurem, foi o que ouvi dizer…

As minhas bicicletas não são propriamente leves. Mas também não é algo que me dê grande abalo ou me faça comichão… Se às vezes fico cego para atirar a bicicleta por uma ribanceira abaixo? Tanta vez, mas quem nunca sentiu isso que atire a primeira bicicleta, mesmo que ela demore mais tempo a chegar lá abaixo e nem faça grande mossa nas conteiras quando chega!

Mas porquê esta opção mais tradicional? - Perguntam-me vocês.
Porque gosto muito de coisas clássicas e antigas e prefiro rumar por este caminho mais simples, alternativo e diferenciador. Porque, mesmo que quisesse, dificilmente teria suporte financeiro para fazer face a toda esta euforia de modernidade, tecnologia e eficiência. E essencialmente, porque não desejo nem muito menos necessito de todas estas coisas…

Anda de bicicleta quem não tem dinheiro para comprar um carro!

Não será novidade para ninguém que a importância das bicicletas e do ciclismo tem crescido exponencialmente nos últimos tempos. Principalmente no que toca às áreas do lazer e do desporto, o crescimento tem sido enorme. Multiplicam-se os utilizadores de fim de semana, e destes, muitos passam a “atletas”.
As bicicletas, pelas suas caraterísticas, são uma excelente porta de entrada para uma vida mais ativa e estimulante. Podem-se considerar acessíveis, não entrando em produtos de topo, e através de uma utilização regular, a evolução física acontece de forma progressiva e com relativa rapidez.
No que toca a uma utilização mais prática e funcional da bicicleta, como meio de locomoção e transporte, o cenário muda de figura. É certo que também neste departamento o uso da bicicleta tem aumentado, mas não da forma que seria a ideal.
Aqui, a bicicleta traz benefícios em várias áreas distintas: saúde, socialização, mobilidade e sustentabilidade ambiental. Portanto, merecia maior importância, visibilidade e procura. E isso não acontece por questões sociais e culturais, baseadas em preconceitos. Não acontece porque se perspetiva sobre a mobilidade tendo o carro como referência. Carro que há muito é objeto de desejo e símbolo de estatuto social. Carro que alimenta o ego, o comodismo e que dá poder…
O artigo* que inspirou este texto abordou uma questão muito curiosa sobre a ideia social de esforço físico. Da mesma forma que certas atividades laborais que envolvam esforço físico são normalmente discriminadas e atribuídas às classes sociais mais baixas e menos instruídas, “pedalar uma bicicleta, tendo a locomoção como objetivo, é socialmente entendido como necessidade e não como oportunidade!”
Portanto, há aqui toda uma imagem desfavorável da bicicleta enquanto meio de transporte que a maioria de nós não quer estar associado…
Pelo menos, quem gere os seus pensamentos com base nesses errados pressupostos.

*Andar de Bicicleta - Sinal de Pobreza?
Disponível em: http://www.revistabicicleta.com.br/bicicleta.php?id=701

A minha "pior" bicicleta!

É curioso constatar que a minha bicicleta mais simples, barata e antiquada, pronto, teoricamente inferior a todos os níveis, é aquela que me dá mais jeito, que mais utilizo, que é mais fácil transportar e arrumar, no fundo, a que tem maior utilidade prática, servindo-me como meio de transporte diariamente.
É uma bicicleta que utilizo com orgulho, sem complexos, nem preocupações. Pode ser pesada, pode ter falhas notórias ao nível da ergonomia e os componentes que a constituem não serem os mais eficazes e robustos, mas está lá para mim! Permite-me transportar carga, estacionar-lhe em qualquer lado, não deixa que me molhe com piso molhado, dá-me alguma margem de manobra nas subidas e descidas, e até tenho o bónus de poder circular, legal e confortavelmente, quando o sol já se escondeu.
Sou inclusive pretensioso ao ponto de dizer que esta minha bicicleta é a que mais faz pelo ciclismo. Que mostra o outro lado do ciclismo, que pode contribuir para uma nova perspetiva de olhar a bicicleta. Mas esta minha pretensão não é apenas baseada num orgulho parolo e egocêntrico, assenta essencialmente no retorno que tenho diariamente. Felizmente são várias as pessoas que já me abordaram e felicitaram, seja por curiosidade, interesse, admiração, ou até saudosismo. Outras simplesmente olham, fazem sinal, sorriem.
As minhas deslocações diárias são curtas, mas até coincidem com algum tráfego automóvel e posso assegurar que até hoje nunca senti qualquer hostilidade na estrada. Até pelo contrário. Também não imponho à força a minha posição de utilizador vulnerável, com a cobertura das novas regras de trânsito, ainda desconhecidas para muitos. A minha postura é e será sempre a mesma, defensiva e cordial, com ou sem regras, e é isso que espero dos outros.
Com o passar dos meses, a minha bicicleta começa a apresentar alguns sinais de desgaste decorrentes de uma utilização intensa, de ser dobrada e desdobrada todos os dias, de estar sujeita às condições atmosféricas. Vou tentando contornar esta situação com alguma atenção pontual, mas ela foi feita para isso, para andar, para ser usada, para servir.
Sempre tive um carinho especial por esta minha bicicleta, mas a partir do momento que a comecei a utilizar efetivamente, ela ganhou ainda mais significado. E tem vindo a acentuar a forma como vivo o ciclismo e as bicicletas. Mas este significado não se traduz em preocupação, antes em à vontade e descontração de utilização, até porque prefiro mil vezes que ela tenha sérias marcas de uso no cumprimento dos meus propósitos, do que fique a acumular camadas de pó e ferrugem parada num canto da garagem!

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