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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Roda Gira Arrogante

Não tenho grandes sonhos ou ambições no que toca às bicicletas, mas desde que despertei para o mundo “singlespeed” e "fixed gear" que a Roda Gira passou a ser uma das minhas principais referências. Há várias bicicletas que gosto especialmente. Para além das minhas, claro. Uma delas é a Roda Gira Arrogante.
Para quem não sabe, a Roda Gira é uma marca portuguesa gerida por um dedicado entusiasta do carreto fixo, que a partir de um pequeno espaço, bem na baixa de Lisboa, leva a sua marca além-fronteiras, onde as suas bicicletas já são conhecidas e apreciadas um pouco por todo o mundo.
A Arrogante é um dos modelos disponíveis. Na realidade é um quadro, que depois de montado com os componentes escolhidos pelo proprietário formam a bicicleta. Os tubos de alumínio que o compõem são da Columbus e a forqueta da mesma proveniência é de carbono. Desde logo fiquei fã deste quadro/bicicleta, tanto pelo seu desenho como pela exuberância da sua pintura. Tem sido alvo de alguns refinamentos e surgiram novas combinações cromáticas, algumas muito bem conseguidas. Para mim, a Arrogante é em amarelo, rosa e azul, tal como a primeira. Mas a mais recente e espetacular "all black" veio baralhar um pouco as coisas. 
Os componentes escolhidos na montagem de apresentação (imagem) formam um conjunto que prima pelo equilíbrio estético e dinâmico. A toda esta harmonia não será alheia uma criteriosa escolha, tendo em conta a imagem e a qualidade destes mesmos componentes.
Considerando a minha realidade física e o local onde vivo seriam necessárias algumas alterações nesta Arrogante. Desde logo a instalação de um travão na dianteira. Depois, o ideal seria o carreto fixo dar o seu lugar a uma roda livre com travão de contrapedal. Os mais puristas diriam que estas alterações desvirtuariam totalmente esta bicicleta. E eu como não purista diria a mesma coisa, já que não podia estar mais de acordo.
Mesmo sabendo que esta não é uma bicicleta para mim, não quer dizer que não a aprecie e não possa figurar lá no topo do meu lote de bicicletas preferidas. O facto é que gosto de ver e pensar esta Arrogante tal e igual como foi idealizada. Assim!

 

rg_arrogante.jpg

Roda Gira

Roda Gira Loja

A Globe e as vacas

Toda a gente sabe que cá as vacas são mais do que muitas. Com tudo o que isso acarreta…
Mas não falemos de coisas menos positivas. As vacas fazem parte da nossa paisagem. São uma das nossas imagens de marca. Não que as caraterísticas das ilhas não se destaquem só por si, mas as vacas acentuam a nossa imagem rural e pitoresca.

 

roll_vacas.jpg

  Estas parecem ter gostado da Globe!

Sem mudanças 2

A opção mudança única é voluntária. Pode ser algumas vezes condicionada por questões práticas, mas é sempre voluntária. Ter outras opções e escolher deliberadamente esta, é algo que nem sempre é fácil perceber, já que maiores níveis de exigência e condicionantes estão garantidos à partida.
Se calhar esta opção é tomada exatamente por isso. Por saber que desde logo, independentemente de vir a adaptar o meu percurso, a dificuldade estará mais presente. Sim, é um objeto que exige outra atitude, mas também não é nada do outro mundo. E nem sempre temos de escolher aquilo que é mais óbvio, cómodo e eficiente. É a célebre dicotomia razão vs. paixão. E a bicicleta sem mudanças é um conceito do qual gosto muito!
Não me vejo fazer certas coisas com ela hoje, mas também já faço outras que não me via fazer no passado. E tudo aconteceu com naturalidade. Aconteceu simplesmente porque me dispôs fazê-lo. Aconteceu porque quis. Assim tem sido e vai continuar a sê-lo, sem prazos nem obrigatoriedades, já que de doses maciças de ambição não padeço.
Querer andar sem mudanças é tão legítimo como outra coisa qualquer. Não é melhor, nem pior, é simplesmente diferente. E para mim, ser diferente faz toda a diferença!
É essa caraterística diferenciadora que me cativa, tal como a componente desafiante. Claro que com outra bicicleta conseguiria ir mais cómodo, mais longe e mais rápido, mas lá está, não seria a mesma coisa.
O desafio e a diferença presentes proporcionam experiências e sensações únicas, e promovem significativamente a relação homem/máquina, com maior acuidade, maior concentração, maior sensibilidade. Poderá parecer um paradoxo falar em sensibilidade, quando estamos a lidar com algo que pode ser bastante bruto!
A linha entre o desafio e o sacrifício por vezes não é bem percetível, até porque o segundo faz parte do primeiro, mas a quantificação do sacrifício e os imponderáveis internos e externos inerentes à minha realidade, levaram-me a afastar do mais radical carreto fixo. Mas, por isso mesmo, passei a usufruir muito mais de uma bicicleta, que pela ausência de mudanças, apesar da sua roda livre, continua a ser desafiante quanto baste e a requerer uma envolvência única.

Sem mudanças 1

Tenho as saídas rotinadas com a minha bicicleta sem mudanças. Que mesmo já não se apresentando no modo carreto fixo, não deixa de ser no mínimo curioso!
Das bicicletas que tenho disponíveis para os passeios semanais, esta seria a visada no que toca à maior limitação de utilização, no entanto, tem sido a eleita na hora de ir para a estrada.
Claro que a este facto não será alheio o tipo de volta que faço, mas mesmo assim, a bicicleta de estrada seria uma opção mais previsível.
Já falei várias vezes no desafio de andar numa bicicleta com estas caraterísticas e até dos seus constrangimentos, mas há um apelo que não consigo explicar, que não me faz hesitar na altura de a tirar do suporte.
Talvez o seu encanto passe mesmo por aí, por ser mais difícil e assim uma opção menos óbvia. Por todas as suas caraterísticas, destacando a sua imagem distinta e irreverente.
Aos seus comandos sinto-me bem, sinto-me diferente. E não estou a falar de caganças de quem faz questão de ter uma extravagância com o objetivo de impressionar os outros.
Esta bicicleta é simples na sua conceção, para alguns até um retrocesso desnecessário. Para mim, tem tudo o que é preciso, mesmo tendo menos que as outras, ao ponto de ser recorrentemente a escolhida.
De facto, menos pode ser mais ou simplesmente aquilo que é, exatamente o que me basta!

Clássico vs. Moderno… Ou clássico e moderno tudo misturado!

A única forma que tenho de quantificar os meus passeios de bicicleta é através da sua duração. O que é chato e limitado, já que não posso partilhar com ninguém, todos os pormenores dos mesmos e assim provar que aqui este menino, em cima de uma bike, não é para brincadeiras! Seja lá o que isso quer dizer…

Não tenho ciclo-computadores, nem muito menos aparelhos GPS todos pipis que registam tudo e mais alguma coisa. E que custam os olhos da cara! Nem sequer utilizo aquelas aplicações no telemóvel, até porque mesmo que quisesse não podia, já que o meu telemóvel não as suporta. Sim, é daqueles que só fazem e recebem chamadas!

Mas não se pense que sou assim tão básico. Um dia perdi a cabeça e comprei um monitor de frequência cardíaca de pulso. Em promoção, não era! Batimentos, zonas de treino, calorias e estas cenas todas. Sou moderno ou não sou?

Pronto, vá lá, acho que já ninguém usa isso e confesso, eu próprio nem sempre o utilizo… Ou melhor, levo o aparelho no pulso, até porque preciso do relógio, mas o sensor fica em casa. Já agora, enerva-me um bocado quando ele está no modo de treino e não consigo ver as horas e tenho de andar a fazer contas…

Já tentei ver as horas pelo sol, mas primeiro, não dá muito jeito estar a andar de bicicleta na bisga a olhar para o céu, segundo, isso cá está sempre nublado, e terceiro, tendo em conta as duas razões anteriores e não dominar assim tão bem a técnica do relógio solar, eleva demasiado a margem de erro. E chegar a casa tarde, não ter a mesa posta e já não estar ninguém à nossa espera é aborrecido. Principalmente a parte de não ter a mesa posta!

Tenho uma bicicleta sem mudanças. Heresia! E com o carreto fixo. E sem travões. E não é por ter qualquer problema com a obesidade ciclística. Tenho porque gosto. Para alguns, porque sou parvo! Mas insisto, é simplesmente porque gosto. Quanto à parte de não ter travões é mentira, mas também só tem um na dianteira e não trava assim tanto como isso. Tenho aqui um conjunto de perna e meia que resolve muito do trabalhinho necessário. Vamos lá ver!

O material da maioria das minhas bicicletas é o aço. Uns melhores do que outros. Apenas a renegada BTT é de alumínio. M4 dizem… Não sei o que é! Carbono? Também não sei... Ouvi dizer que era plástico, mas em bom, não sei… Não me censurem, foi o que ouvi dizer…

As minhas bicicletas não são propriamente leves. Mas também não é algo que me dê grande abalo ou me faça comichão… Se às vezes fico cego para atirar a bicicleta por uma ribanceira abaixo? Tanta vez, mas quem nunca sentiu isso que atire a primeira bicicleta, mesmo que ela demore mais tempo a chegar lá abaixo e nem faça grande mossa nas conteiras quando chega!

Mas porquê esta opção mais tradicional? - Perguntam-me vocês.
Porque gosto muito de coisas clássicas e antigas e prefiro rumar por este caminho mais simples, alternativo e diferenciador. Porque, mesmo que quisesse, dificilmente teria suporte financeiro para fazer face a toda esta euforia de modernidade, tecnologia e eficiência. E essencialmente, porque não desejo nem muito menos necessito de todas estas coisas…

Carreto Fixo

Andar numa bicicleta de carreto fixo é sempre um desafio. Já não andava com a minha há muito tempo.O facto é que estive fisicamente impedido e quanto ao regresso... Estava com medo!
Quem já andou numa bicicleta de carreto fixo sabe que têm vontade própria. São exigentes. Rudes e inconsequentes na forma de reagir. Não admitem erros e fazem pagar por eles sem parcimónias. São intimidantes!
Por outro lado, são incrivelmente simples na sua conceção e deliciosamente desafiantes!
Hoje voltei a andar nela. Inesperadamente demo-nos todos bem. Eu, ela, o meu joelho... Uma hora a pedalar consecutivamente, literalmente!
Cheguei algo moído, mas muito satisfeito.
A verdade é que adoro esta bicicleta!

Mudança única e carreto fixo!

A abordagem que faço às bicicletas tem-me levado a afastar das soluções tecnologicamente evoluídas, da competitividade, dos elevados custos, da elevada eficácia dos componentes e de todo o conjunto. Estou sim, mais próximo do básico, de uma produção mais conservadora, simples, económica e de um estilo mais retro, mantendo os níveis de qualidade e de eficiência adequados aos meus objetivos e necessidades.
Há algum tempo que tencionava adquirir uma bicicleta sem mudanças e de carreto fixo. Tanto pelo estilo e simplicidade do conceito, como pelo desafio de condução inerente. Não digo que seja como aprender a andar de bicicleta de novo, mas é necessário rever vários hábitos há muito interiorizados. Também não vou negar que me dá um certo gozo ser mais uma vez diferente e pioneiro.
Mas este não foi um objetivo de concretização fácil. Implicou algum tempo de pesquisa, de seleção e ponderação. Considerei várias opções, entre propostas mais económicas, personalizadas e de série. Confesso que desde o início tinha preferência por um dos produtos da marca do “S” rasgado, mesmo que no caso não o ostente, acabando mesmo por comprar uma Specialized/Globe Roll 1, ao que não será alheia, uma vez mais, a postura da empresa representante local da marca.
Se calhar posso ser suspeito para emitir tal opinião, mas a estética da Roll é simplesmente arrebatadora! A solução monocromática onde o preto brilhante é a cor eleita e todo o visual minimalista e espartano proporcionado pelos finos tubos em aço (Cr-Mo) e pela ausência de componentes supérfluos, dão-lhe atitude e não lhe deixam passar despercebida.
A Roll possui um cubo traseiro “flip-flop”, ou seja, tem de um lado um carreto fixo e do outro um livre, que permite passar de “fixed gear” a “single-speed”, ou vice-versa, num simples rodar de roda. A minha saiu da loja na configuração “fixie”, apenas com o travão da frente instalado. A ideia é desenvolver capacidade para a dominar assim e para fazer “skids”, ou seja, a técnica de travagem em que se bloqueia a roda traseira com a paragem voluntária dos pedais. Estou em condições de dizer que não é tão fácil como parece, embora já tenha conseguido esboçar alguns “skids”, ainda que muito tímidos e inseguros.
Desde logo não gostei dos pedais com clip e fitas e foram prontamente substituídos por pedais de encaixe. É curioso constatar que neste momento a forma mais natural de pedalar envolva pedais de encaixe!
As novidades começam logo no arranque, com tendência para persistir - «olha, um pedaleiro com vontade própria!». A relação de transmissão (42X17) é adequada para uso citadino, para rolar em plano e até para subidas com inclinação moderada, mas o que mais me custou foram mesmo as descidas. Facilmente os pedais atingem uma rotação demasiado elevada o que acaba por ser exigente fisicamente, até porque a tendência é começar a saltitar sobre o selim, o que associado à pouca velocidade atingida fez-me desejar mais do que uma vez que as descidas em causa acabassem depressa.
Também convém não esquecer que não dá para descansar as pernas. Enquanto a bicicleta estiver a andar a pernas estão em movimento, até porque ela faz questão de nos informar disso da forma mais brusca possível. Tal como é preciso atenção à sua inclinação nas curvas, já que aqui não se ajeitam pedais quando nos dá jeito. De resto é possível (imperativo) abrandar a marcha fazendo força com as pernas no sentido inverso da mesma, até porque o travão da frente, por si só, nem sempre é suficiente.
Pormenores à parte, os dias têm sido curtos para desfrutar tudo o que a minha Globe Roll 1 tem para oferecer… E agora até já posso dizer com legitimidade e orgulho:
«My legs are my gears»

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