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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Aos pedais!

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Havia desconforto. Outras prioridades. Gosto limitado.
Mudança de cenário. Outra bicicleta. Nova realidade.
Inovam-se as distâncias e os destinos. Cresce a vontade…
O gosto. A estima pela companheira de duas rodas.
Mantém-se a simplicidade. Arrisca-se o desafio.
Sente-se o prazer e a liberdade de ir estrada fora.
De rolar com todos os sentidos à flor da pele.
A velocidade contra ou ao sabor do vento.
Num ambiente que cerca e invade.
A pedaladas largas e ritmadas as rodas ocupam o seu lugar…
Naturalmente!

Diferentes

Tenho bicicletas de origem americana e portuguesa. São marcas bastante diferentes entre si, com uma oferta e um posicionamento de mercado completamente distintos. Mas gosto de todas!
A americana Specialized é uma marca de topo com a qual já tenho uma relação de longa data. Por isso mesmo, é a que recorro normalmente seja para a aquisição de bicicletas, acessórios e equipamentos. E depois existem as exceções que confirmam a regra.
Nem sempre compramos exatamente aquilo que queremos, por uma série de circunstâncias e limitações que não conseguimos controlar, mas sim aquilo que podemos e nos proporcionam comprar. Há sempre uma questão de conveniência que nos pode aproximar ou afastar do pretendido.
Confesso que, desde o tempo das motas, tenho uma preferência pelas produções de origem europeia, em particular pelas italianas. Nas bicicletas acontece o mesmo. Gosto muito da Specialized, foi, é e será sempre uma opção segura, mas o meu coração, lá no fundo, palpita por uma… COLNAGO!

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Imagem: Colnago

 

Se calhar as coisas têm de ser mesmo assim. É que o encanto e o deslumbramento derivados da imagem, do prestígio e da história, também são acentuados pela menor acessibilidade.
E quem fala em Colnago (uma das minhas marcas preferidas de sempre), fala em muitas outras marcas italianas e europeias que têm uma oferta diferente, mais carismáticas, menos de massas…
E a questão é exatamente essa, não é serem melhores, é serem simplesmente diferentes!

Paralelismo

O verão e os múltiplos eventos que surgem nesta altura do ano fazem de Ponta Delgada uma cidade mais bonita, viva e alegre. Não indiferente a este facto, a minha companheira e as minhas rotinas diárias são as mesmas de sempre. Mas ao que tudo indica irão alterar-se. O cenário e a bicicleta mantêm-se. Se por um lado, sinto pena de deixar um local, o mar, as pessoas. Por outro, a mudança talvez me traga um toque de inovação e frescura, fazendo um paralelismo entre a minha vida e a cidade de Ponta Delgada…

 

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Andando por aí…

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Queria fazer uma volta diferente. Ultimamente, ou fazia a volta ao concelho de PDL ou ia às Furnas. Desta vez não. Até a bicicleta seria outra.
A Roubaix deu lugar à Allez, que já a algum tempo se tem mantido intocada no rolo. Ainda pensei que se calhar a deveria deixar lá por mais uma semana, mas não…
Tinha uma ideia geral do que queria fazer, mas o percurso foi evoluindo à maneira que progredia no terreno.
Comecei então como quem vai dar a volta ao concelho, no sentido dos ponteiros do relógio, mas chegando à Várzea virei no sentido das Sete Cidades. Subir para descer e voltar a subir.
Na ponte cruzei-me com um ciclista “das descidas” que depois passou por mim numa caixa de uma carrinha, enquanto eu ia naquele ritmo, ora lento, ora muito lento, no cimento. Alguns turistas a pé a dar-me apoio, o que é sempre curioso e motivador.
No topo virei no sentido do Pico do Carvão e depois de subir mais um bocadinho lá veio a descida, não necessariamente ansiada, até porque estava uma “porcaria”, com gravilha em quase toda a sua extensão!
Arribanas e porque ainda era cedo, Capelas. E depois foi rolar até casa, já a imaginar o que iria ingerir como recuperador. O costume…
A Roubaix teria sido melhor opção nesta volta, admito. Mas a Allez é aquela companheira que, apesar das contrariedades, nunca desilude. E é sempre com grande gosto e vontade que vou aos seus comandos.

Rotinas

À palavra rotina é normalmente atribuída uma conotação negativa, associando-se a uma prática monótona, desinteressante e repetitiva.
Sou uma pessoa de rotinas. E não necessariamente negativas. Aliás, a quebra destas é que pode estar baseada num momento ou numa circunstância menos positiva. Outras queria mudar por achar serem benéficas e simplesmente não consigo por estar tão agarrado às anteriores.
A minha volta de bicicleta ao domingo já está mais que rotinada. Foi um hábito que ganhei há vários anos e embora haja alguma flexibilidade, não a fazer é claramente uma exceção.
Comecei por andar de bicicleta só ao domingo, depois adicionei a prática de Indoor Cycling três vezes por semana. Depois voltei a andar só ao domingo. Esporadicamente posso adicionar uma volta noutro qualquer dia da semana (a solo ou em família), e mais esporádico ainda, no rolo (chato!).
Queria andar nem que fosse mais uma vez… Não consigo! Vejo gente que o faz logo pela fresca ou ao final do dia, mas não consigo. Não consigo implementar este hábito por estar demasiado agarrado às minhas atuais rotinas. Ou por uma questão de prioridades. Ou por não achar realmente ser uma necessidade. Ou simplesmente porque sou preguiçoso. Ou porque não é algo que queira verdadeiramente fazer, senão já o teria feito, ou pelo menos tentado.
Eu, pessoa de rotinas, se calhar não implemento este hábito para não cair na rotina de andar com as mesmas bicicletas sempre nos mesmos locais?!
É verdade que exercito o corpo e desanuvio a cabeça de outra forma praticamente todos os dias, mas andar de bicicleta mais umas vezes fazia-me bem… Mas quantas coisas não nos faziam bem e não estamos para aí virados?
Chega a ser estúpido não fazer algo de que gosto tanto, quando aquilo que não quero largar nem ser assim nada tão relevante…
Dentro das minhas dúvidas e interrogações, de uma coisa tenho a certeza, domingo vou andar de bicicleta!

 

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A encantadora!

Um dos problemas de ter várias bicicletas é que em determinado momento existem algumas delas que vão estar mais paradas do que seria desejável.
A minha Globe Roll é uma daquelas bicicletas que, pelas suas caraterísticas, não permite uma utilização muito abrangente, até pelo contrário, exigindo condições específicas. Não é bicicleta para voltas muito longas, nem muito desafiantes ao nível do percurso e das suas diferenças de altimetria.
É, por isso mesmo, uma das mais relegadas ao suporte…
Mas quando decido que está na hora de lhe levar para a estrada, depois daquele primeiro embate motivado pela falta de velocidades, pelo seu carreto fixo, pela ausência de travão traseiro, é das bicicletas que mais me dá prazer!
O facto é que nem sei explicar bem porquê, até porque são alguns constrangimentos e outro tanto de agressividade, e masoquismo não é muito a minha onda…
Julgo que palavras como diferença e desafio podem fazer parte da equação e do encanto. Sim, encanto. Esta bicicleta tem esta capacidade sobre mim…
A mais pura. A mais simples. A mais encantadora!

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Só ou acompanhado?

Acompanhado, mas…
Recordo com saudade o tempo em que andava de bicicleta em grupo. Formei um e integrei outros já formados. Sempre de BTT, numa altura em que a Estrada ainda era desconhecida para muita gente. Andar em grupo, nem que seja apenas nós e mais um/a, é indiscutivelmente mais entusiasmante e motivador, valendo igualmente pelo convívio e pela partilha.
Atualmente ando sempre sozinho. Ou quase sempre. O facto de ter divergido dos demais, ao nível da atitude e das opções, colocou-me numa posição intermédia e menos considerada. Não tenho andamento (nem faço por ter) para acompanhar quem já leva o ciclismo mais a sério, mas também tenho outro ritmo, quando comparado com quem encara as bicicletas com demasiada distância e descontração. E perante ritmos e atitudes diferentes, fica mais complicado gerir o esforço e o tempo, o que influencia negativamente na fluidez e na tranquilidade de uma volta, a não ser que seja um acontecimento de caráter excecional.
Para além disso, é o compromisso. De facto, andar em grupo implica compromisso. Implica seguir o que foi estipulado como hora de saída, ponto de encontro, trajeto, ritmo, etc. E isso causa-me alguma ansiedade e desconforto. Eu, que tantos domingos acordei mais cedo para atravessar a ilha de norte a sul ao encontro do grupo e que depois da volta fazia o trajeto em sentido contrário, sozinho, enquanto os meus companheiros já estariam de banho tomado e sentados à mesa para repor calorias. E fazia-o com gosto. Mas contradizendo o ditado popular de que “quem corre por gosto não cansa”, se calhar, cansei-me…

Ainda sobre o estacionamento de bicicletas!

Ainda há poucos dias falei de estacionamentos para bicicletas em Ponta Delgada. Hoje vou falar de estacionamentos, mas num local específico da cidade no lado norte da ilha. Refiro-me à praia de Santa Bárbara, na cidade da Ribeira Grande.
Aqui há uns tempos vivemos duas situações muito desagradáveis nesta praia envolvendo bicicletas. Num curto espaço de tempo roubaram-nos o selim e respetivos acessórios associados e depois foi a bicicleta completa!
Na altura foi dado conhecimento da situação à Câmara e feito o alerta no sentido de se repensar o tipo de estacionamento utilizado e a sua localização naquela praia.
Recentemente, agradou-nos constatar que o local do estacionamento de bicicletas foi alterado e está agora numa zona do parque muito mais adequada, exatamente por ser mais prática, movimentada e visível. Infelizmente, a estrutura que serve de estacionamento é a mesma, um ainda resistente “empena rodas”, que peca tanto por esta sua nefasta capacidade, daí o apelido, como por não permitir prender a bicicleta corretamente pelo seu elemento básico – o quadro, já que suporta toda a bicicleta apenas por uma roda! Não é prático nem seguro. É preciso improvisar, daí ser habitual ver bicicletas encostadas numa das laterais da estrutura como forma de tentar ultrapassar as suas limitações.

 

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A Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores da Bicicleta tem disponível na sua página um documento bastante esclarecedor de como devem ser os estacionamentos para bicicletas.

Pedais de encaixe

Tinha acabado de reentrar no mundo do ciclismo, com a compra da Hardrock, quando, numa conversa sobre pedais, ouvi da parte de uma pessoa conhecedora e conhecida no meio que, já não sabia andar de bicicleta sem pedais de encaixe!
Na altura, do alto da minha ignorância e do meu estatuto de novato, pareceu-me que a pessoa em causa estava a armar-se, e consequentemente, a remeter-me ainda mais para a minha insignificância.
Uma semana depois da compra estava a estrear os tão badalados pedais de encaixe!
Hoje, sou eu quem faz a mesma afirmação, a quem procura a minha opinião, sobre os ditos pedais. Aliás, só não os uso em ambiente urbano, por questões práticas e porque as distâncias percorridas não o justificam.
Tão óbvios, mesmo para alguns/algumas que juraram a pés juntos que jamais os teriam presos à bicicleta…
Ontem foi dia de mais uma estreia. Os meus Shimano, atualmente sem uso, saíram do armário para serem instalados numa bicicleta. Uns engates normais, até porque estamos a falar de encaixes. Mas correu bem. E aquela satisfação habitual advinda da superação e de que afinal não é assim tão complicado como se tinha imaginado. E os elogios…
“Eh pá, isso não tem nada a ver. Que diferença!”

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Imagem: Shimano

Estacionamento para bicicletas em Ponta Delgada

Em 2015 a Câmara Municipal de Ponta Delgada instalou cerca 40 lugares de estacionamento para bicicletas em várias zonas da cidade. Uma excelente iniciativa, sem dúvida, mas na minha opinião tinha ficado esquecido um local prioritário como o Mercado da Graça! Na altura tive intenção de sugerir isso mesmo, mas nunca cheguei a fazê-lo (intenção sem ação, por melhor que seja, de pouco serve). O facto é que passados quase 3 anos, por determinação própria ou sugestão, foram finalmente disponibilizados estacionamentos para bicicletas junto ao Mercado da Graça. Se a instalação de estacionamentos para bicicletas junto às escolas anteriormente concretizada presume uma ação pedagógica e estratégica, agora é também possível ir a um mercado tão caraterístico desta cidade da forma mais natural possível (mais natural só a pé), sem ter de se deixar a bicicleta presa a um poste nas redondezas ou num dos estacionamentos demasiado distantes do local em causa.
De salientar que estamos a falar das estruturas mais adequadas para estacionar bicicletas, simples, económicas e robustas em U invertido, e que não foram remetidas a um canto, exatamente aquilo que se pretende!
Na altura em conversa com um amigo, também ele utilizador da bicicleta no dia-a-dia e defensor da existência de estacionamentos que não os “empena rodas” num canto escuro, mas reclamando mais algum sentido estético dos mesmos, divergimos opiniões. Se até aos tubos cinzentos de ferro foram subtraídos os autocolantes indicativos com bicicletas, para quê dar mais do que isso se (quase) ninguém quer saber? Para estes quanto mais passarem despercebidos melhor. O que interessa realmente a quem anda ou quer começar a andar de bicicleta na cidade é ter uma estrutura bem localizada e com a forma certa para poder estacionar com facilidade e segurança a sua bicicleta. Objetivo cumprido!

 

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Imagem: CC - Specialized

Ai se ele cai

Dizer que as bicicletas são perigosas não está certo. É injusto. Correm-se alguns riscos, mas não mais do que em outras atividades. Sendo uma atividade que envolve equilíbrio, velocidade e circulação na estrada é preciso algum cuidado, claro. Já me magoei bastante a jogar (brincar ao…) futebol… e gosto pouco de futebol. De bicicleta já ando há uns anos, já caí algumas vezes, mas nunca me magoei a sério. Azar? Sorte? Não sei, mas também não interessa, que assim continue.
As crianças normalmente correm mais riscos, à sua dimensão é certo, mas o facto é que são menos cuidadosas e conscientes. Por isso é imperativo acompanhamento parental e material adequado para uma normal evolução sem grandes sobressaltos. Já assisti a muitas quedas do meu filho, umas mais aparatosas do que outras, mas até agora sem grandes consequências. Houve uma que me fez pensar, mas para a frente é que é caminho.
Já passou por várias bicicletas e outras tantas fases. Já foi para todo o lado com ela, já a esqueceu a favor de outras coisas, já quis fazer provas. Prefere a terra ao asfalto e as descidas às subidas, e até ao plano! Está numa de, ocasionalmente, se divertir sem se sacrificar muito! Eu compreendo e acompanho. Também gosto de fazer três ou quatro passagens no mesmo local e regressar, mesmo um bocadinho chateado por ter sujado a bicicleta e o equipamento por tão pouco (quantidade não é qualidade!)…
Às vezes assusto-me com o seu excesso de confiança e à vontade, e com o que é capaz de fazer… A mãe nem se fala! Outras vezes rio-me. E alerto-lhe para rolar com cautela em locais que desconhece e nas vias públicas, para estar desperto para situações e reações imprevistas, para usar os dois travões em vez de apenas o traseiro. Percebo que a maior parte das vezes não me esteja realmente a ouvir, faz parte. Tal como faz parte aprender da pior maneira, por não me ter dado ouvidos.
Proporciono-lhe condições para andar, dentro das minhas limitações, e passo-lhe as ferramentas que podem minimizar os danos. Mas percebo que existem inevitáveis. Que faz parte desafiar, arriscar e querer ir mais além. E cair. Preocupo-me, não quero que caia, nem que se magoe. Sei que ele também não, mas, às vezes, "distrai-se"…

Vai para a ciclovia!

Foram-me relatadas buzinadelas… gritos… gesticulações agressivas!

Embora alguns automobilistas pensem o contrário, as vias onde existam faixas destinadas à circulação de velocípedes (ciclovias), não faz com que estes veículos estejam obrigados a circular nelas! O Artigo 78.º do Código de Estrada é esclarecedor:

“Quando existam pistas especialmente destinadas a animais ou veículos de certas espécies, o trânsito destes deve fazer-se preferencialmente por aquelas pistas.”

Sim, os utilizadores de bicicletas devem dar preferência a estas pistas especiais para a sua circulação, mas as coisas nem sempre são assim tão lineares e dependem das circunstâncias e do bom-senso. Não foi por acaso que se introduziu a palavra preferencialmente neste artigo na última revisão do Código da Estrada, em vigor desde 1 de janeiro de 2014.

Atente-se ao seguinte cenário como exemplo:
Domingo de manhã, dia agradável de sol e temperatura amena. Muitas pessoas e famílias aproveitam o dia de descanso e o bom tempo para atividades de lazer ao ar livre. Uns caminham, outros correm, outros ainda andam de bicicleta, de patins, de trotinetes. E fazem-no numa aprazível faixa litoral, com um passeio sobre o mar que engloba uma ciclovia. Um ciclista sai para a estrada para o seu habitual passeio matinal, equipado a rigor com a sua bicicleta de estrada. Ao atravessar a cidade opta por utilizar também a referida via. De notar que esta possui duas faixas de rodagem no mesmo sentido. Tendo em conta o facto de ser plana e com bom piso, mesmo imprimindo uma toada relativamente calma, uma bicicleta de estrada nestas circunstâncias vai circular sempre depressa demais para uma ciclovia, que nestas condições, terá inevitavelmente a presença de peões, tanto adultos como crianças.

Mas existem outros cenários e existem ciclovias que apenas pela sua conceção e localização são pouco apelativas à sua utilização, seja por conveniência, seja acima de tudo pela segurança, ou falta dela. Num mundo perfeito as ciclovias seriam irrepreensíveis na sua localização, nos acessos e dimensão. Não teriam a presença de peões e seriam em número suficiente, concebidas tanto para o lazer como para a utilização da bicicleta como meio de transporte diário. Estando nós muito longe dessa realidade, os automobilistas terão de se habituar à ideia de partilhar a estrada com outros veículos que não automóveis, fazendo-o com a naturalidade e o bom-senso que a situação impõe. Da mesma maneira, na falta de condições para o fazer numa ciclovia, os utilizadores de bicicletas deverão utilizar estas mesmas estradas de forma assertiva, preservando a sua segurança e minimizando possíveis efeitos negativos na fluidez do tráfego.

Velocidade de cruzeiro, ou não!

Segunda-feira, primeiro dia da última semana do mês. Um dia muito agitado na cidade de Ponta Delgada. Estavam quatro navios de cruzeiro atracados! Para uma cidade pequena, considerando todo o movimento inerente e o número de passageiros desembarcados, o congestionamento no trânsito foi um dos primeiros sinais de que algo fora do comum se passava. Isso se se estivesse muito distraído e não se reparasse na forte presença que estes barcos impõem.
Não sou grande adepto, confesso. Por isso vai ser difícil apanharam-me a tirar fotografias ou “selfies” com os ditos a servirem de pano de fundo. E também ainda não consegui perceber o real impacto da sua vinda, medindo os prós e os contras de forma rigorosa. Mas isso já é outra conversa…
Hoje, mais do que nunca, nem quero ouvir falar do carro, até porque já senti a lentidão do trânsito logo pela fresquinha, inevitavelmente. A bicicleta sim, faz todo o sentido, mesmo sabendo que terei de andar com especial atenção na ciclovia do costume por causa do anormal fluxo pedonal, situação que (já) não me chateia especialmente. Se quero que os automobilistas sejam compreensivos comigo também tenho de o ser com os peões. Faz parte.
Filas de trânsito automóvel compactas e a moverem-se a passo de caracol, em ambos os sentidos da marginal. O menor volume da bicicleta permite desenvencilhar-me da lenta progressão, mas com calma e cautela. Foi com agrado que vi alguns condutores facilitarem-me a passagem, o que agradeci com um baixar de cabeça. Também houve quem tentasse atrapalhar, mas este não merece destaque.
Com o recurso à bicicleta não tive de fazer nenhuma alteração especial à minha rotina diária. Já com o automóvel, as coisas foram um bocadinho diferentes…

Do “Fit” e do “Detox”

Sou um adepto convicto do exercício físico e de hábitos de vida saudáveis. Mas muito pouco fundamentalista. Comecei relativamente tarde, mas já fiz um pouco de (quase) tudo.
Hoje, revejo-me menos em ginásios e menos ainda em manias que se instituem de certos exercícios, da alimentação e da suplementação alimentar. Sim, gosto de aveia e de chá, mas recuso a euforia "detox". E gosto de ginásios, embora já não frequente, pois não faltam locais para exercitar o corpo muito mais acessíveis e aprazíveis. Não meço nem partilho tempos, quilometragens, calorias.
Pensar no bem-estar físico não é ir ao ginásio e comer saladas, é ter alguma parcimónia sentado à mesa (mas com direito a excessos ocasionais) e fazer trocas tão simples como ir pelas escadas em vez de ir no elevador, ou ir a pé em vez de pegar no carro para fazer uma deslocação ridiculamente curta.
Adoro bicicletas e faço por as usar, até pela sua componente prática e utilitária onde se junta o útil ao agradável, para além do lazer e do desporto. Mas lá está, nem toda a gente tem de gostar ou andar de bicicleta...
Coisas tão simples como caminhar à beira mar ou no meio da natureza são física e mentalmente revigorantes. O corpo e a mente devem ser trabalhados em equilíbrio e harmonia.
Não, não quero viver até aos cem anos e envelheço sem complexos, mas o tempo que viver que seja o melhor possível, até porque quando outros departamentos da vida falham, neste a satisfação pessoal está garantida.

O muro!

É curioso que as histórias mais engraçadas e que mais ficam na memória serem sempre sobre quedas e acidentes ou outras desgraças, não é?
Esta é mais uma história de outros tempos, no caso, sobre mim, a minha bicicleta e um muro.
Quando já era mais crescido tive uma bicicleta de estrada que o meu pai tinha trazido dos Estados Unidos da América. Foi a primeira vez que andei numa bicicleta de estrada. Esta bicicleta, na altura e para mim que queria era uma BMX, era um bocado esquisita! Tinha um guiador estranho, todo curvado para baixo. Além disso, tinha umas rodas muito fininhas. E uns travões pouco acessíveis. Eram as bicicletas que os ciclistas profissionais usavam nas corridas de estrada que apenas via na televisão.
Estava então a andar de bicicleta no bairro com o meu irmão, como era costume, mas agora do lado de fora. Lado que só era permitido agora que eramos maiores, já que antes só lá íamos de fugida às escondidas. É que aqui já havia uma rua movimentada, embora tivesse um passeio bastante largo, com umas grandes árvores. Algumas raízes destas árvores faziam elevações no passeio que pareciam rampas de saltos.
A parte mais interessante de andar do lado de fora do bairro eram exatamente os saltos. Então, pedalávamos o máximo que podíamos para tomar balanço e saltávamos com as bicicletas nestas elevações. A maior, portanto, a mais desejada, era a que ficava mais próxima de um muro. Tendo o meu irmão como espetador, afasto-me e dou meia volta, e venho a toda a velocidade de encontro à maior elevação do passeio. Salto e continuo a avançar com velocidade, cada vez mais próximo do muro…
De mãozinhas plantadas no topo do guiador percebi que não chegava aos travões… e o muro a aproximar-se rapidamente!
- O que é que eu faço? – pergunto, em pânico, ao meu irmão.
– TRAVAAA!!! – grita ele.
Já não deu tempo… E fui de frente contra o muro!
PAMMM!!!

A corrida de bicicleta!

No meu tempo de criança não existiam tantas preocupações como hoje. Andava-se de bicicleta sem proteções de segurança e não se vestiam roupas próprias, até porque não se viam. A rapaziada andava e brincava mais à vontade na rua, e divertia-se muito. Não haviam tantos perigos como agora e os pais eram mais descontraídos.
Como qualquer miúdo gostava muito de andar de bicicleta. Costumava andar sempre com o meu irmão, mas também com os nossos amigos do bairro. O bairro era um belo sítio para jogar à bola e andar de bicicleta, já que tinha relvados rodeados por passeios que pareciam ruas, onde fazíamos corridas de bicicleta e outras brincadeiras. Também se jogava ao pião, ao berlinde e apanhava-se borboletas, ou pelo menos tentava-se.
Certa vez, eu e o meu irmão fizemos uma corrida. Rapazes e a tendência para as corridas…
Subimos até ao topo do bairro para depois descermos a toda a velocidade. Os dois queriam chegar primeiro e faziam tudo para consegui-lo. Sendo mais velho, ainda antes do meio da descida comecei a ultrapassá-lo e ele mais não fez do que tentar impedir a minha manobra. Com isso, ficamos a pouca distância lateral um do outro e quando já tomava a dianteira, a manete do travão da bicicleta do meu irmão prende no aro cromado que suportava o selim da minha bicicleta (eram duas Sirla laranja de selim corrido e guiador alto), o que fez com que perdesse o equilíbrio, dando uma aparatosa queda!
Ele desatou a chorar e eu parei e aproximei-me dele sem saber o que fazer. Com o barulho da queda e do choro, o nosso pai veio a correr para ver o que tinha acontecido.
- Como é que isto aconteceu? Eu não vos disse para terem cuidado? – perguntou visivelmente preocupado e irritado!
O meu irmão continuou a chorar e eu apenas encolhi os ombros…
Depois de ver que tinha sido mais o susto da queda e que o meu irmão não se tinha magoado, o nosso pai disse:
- Vá, acabaram-se as corridas, vamos para casa. E ficam já a saber que estão os dois de castigo. Só voltam a andar de bicicleta quando eu disser!
As corridas nem sempre correm bem. Nesta, ninguém chegou em primeiro, um acabou no chão a chorar e o outro amuado. O nosso pai zangou-se com os dois e, depois em casa, a nossa mãe também. Uma das bicicletas ficou maltratada. Mas, pior mesmo foi termos ficado de castigo sem saber quando é que voltaríamos a andar de bicicleta.

“100 pedais”

Já se passou uma década. Começou a andar de bicicleta muito cedo. O avô materno ofereceu-lhe uma no seu primeiro aniversário. Não se lembra efetivamente, mas é algo de que se orgulha. Aliás, a bicicleta ainda a tem e não há intenção de algum dia se desfazer dela!
Não é uma bicicleta qualquer, mas uma bicicleta de equilíbrio. Basicamente só tem o quadro, duas rodas, guiador e selim. Pois, não tem nem pedais, nem travões, mas é exatamente isso que faz dela a escolha certa para aprender a andar de bicicleta. Ah, tinha uma campainha, mas um dia pediu ao pai para a tirar e nunca mais apareceu…
Na verdade, o avô apenas a pagou porque quem a escolheu foi o pai, supostamente mais entendido no assunto. Mesmo assim, na altura, houve alguma hesitação já que era uma novidade, tanto que foi a primeira do género a ser vendida.
Ainda nem sabia andar (a pé) e já andava de bicicleta. Com o pai ou a mãe a empurrar-lhe, claro. Um ano depois, já se equilibrava sozinho e andava com ela por todo o lado.
Mais tarde, o pai explicou-lhe que, ao contrário do que muitas pessoas pensavam, a bicicleta de equilíbrio, sem pedais, era a melhor forma de aprender a andar de bicicleta, por ser a mais rápida, natural, intuitiva e independente.
Gosta muito da sua bicicleta sem pedais. Às vezes ainda dá umas voltinhas nela, mesmo já sendo tão pequena para ele.
Tem e já teve outras, de diferentes tamanhos, com pedais e restantes acessórios. Já andou mais ou pelo menos com outra frequência, já que existem novas solicitações, mas não o remetem para o sofá e para os ecrãs, pelo contrário, sendo igualmente benéficas.
Uma década depois, a ausência deu lugar à inclusão. Dos pedais, mas não só. A partir de agora o percurso poderá ser feito a dois... Ou não! Certo é que para além do gosto pelas bicicletas, partilha com o pai o gosto pela escrita, demonstrado com o texto “A minha vida de bicicleta”, com o qual se estreia neste espaço e que se pode ler abaixo.

A minha vida de bicicleta

Olá! Eu chamo-me Specialized Tarmac, mas se quiserem, podem-me só chamar de Tarmac.
A minha vida é muito boa! Bem, depende dos momentos.
Eu sou feita de carbono, o melhor material de uma bicicleta. Por isso é que sou do topo de gama da minha família.
Eu nasci numa fábrica e depois mudei-me para São Miguel. Morava numa loja da minha marca chamada “Carreiro”. Lá estava cheia de amigas, mas certo dia tive de me despedir delas, pois compraram-me. Quem me comprou, deu um monte de dinheiro por mim, pois como já vos disse, sou do topo de gama.
A pessoa que me comprou deu-me muito carinho. Enchia-me os pneus, metia-me óleo na corrente, etc… E o melhor de tudo é que me dava bastante uso, apesar de às vezes meter-me sozinha num sítio a que os humanos chamam de “garagem”, mas faz parte.
Conheço muitos sítios, graças aos passeios que já dei com o meu dono. Conheço as Furnas, as Sete Cidades e até o Pico do Fogo. Ainda conheço mais, mas se disser, vou ficar aqui muito tempo.
Apesar de conhecer muito bem o meu dono também conheço as pessoas que me arranjam em coisas mais graves. Até sei os nomes!
A minha melhor amiga chama-se Specialized Roubaix.
A minha vida ainda tem mais por contar, mas agora vou até São Brás com o meu dono.
Adeus!

Tomás Pereira, 03/2018

Bicicletas – Conversas e considerações

Hoje a minha hora de almoço foi diferente. Praticamente toda ela a falar de bicicletas. Numa loja de bicicletas, à volta de uma bicicleta de enduro elétrica. Falamos de provas, de comportamentos dos ciclistas e dos automobilistas, de infelicidades, obrigações, de voltas e de bicicletas efetivamente.
A partilha de ideias, opiniões e experiências enriquece-nos e pode levar à reflexão e a encarar determinada situação de um ponto de vista que até então não era o nosso.

Resultantes destas mesmas conversas ficam algumas considerações.

- Embora muitos automobilistas ainda não considerem a presença das bicicletas na estrada, o facto é que se nota, de uma forma geral, uma alteração positiva nesse sentido;
- O facto de o quadro legal atual nos ser mais favorável, não quer dizer que tenhamos de o impor à força. Até porque, considerando a nossa posição de vulnerabilidade, trata-se de uma questão de preservação da nossa integridade física;
- Nós, ciclistas ou utilizadores das bicicletas, não devemos tratar os outros como não queremos ser tratados. É básico e a melhor forma de preservarmos a nossa imagem enquanto grupo ou comunidade, que se espera que seja maior a cada dia que passa;
- Ao contrário dos outros interlocutores continuo a ser da opinião que não faz sentido a obrigatoriedade do (tão falado) seguro para as bicicletas. A necessidade do seguro prende-se com a capacidade destrutiva do veículo e, por exemplo, um automóvel tem um potencial destrutivo muito, mas muito, superior ao de uma bicicleta. Numa eventualidade de que resultem danos a outros, dos quais somos responsáveis, teremos de os assumir como noutra situação qualquer;
- Também não concordo com a obrigatoriedade do capacete. A sua recomendação faz todo o sentido, claro, mas deve continuar a caber a cada um equacionar a sua utilização e o grau de risco a que podem estar sujeitos. Pessoalmente, não vejo necessidade de utilizar capacete nas minhas rotinas diárias com a bicicleta, ao contrário do que acontece nos meus passeios em estrada ou fora dela. Os estudos valem aquilo que valem, mas posso mencionar a propósito que se verificou uma quebra no uso da bicicleta após a implementação da obrigatoriedade do uso do capacete em determinados territórios. Outro estudo indica que os automobilistas perante ciclistas com capacete têm uma condução mais descuidada do que quando estão perante ciclistas sem este elemento de proteção;
- Encarar uma bicicleta como um veículo utilitário já tem, só por si, vários constrangimentos. Cultura, mentalidade, organização das cidades, meteorologia, vulnerabilidade, entre outros, portanto, impor-se ainda mais obstáculos à utilização da bicicleta é a receita certa para se persistir num modelo de mobilidade urbana obsoleto e insustentável, centrado no automóvel individual. Exatamente o que não se pretende;
- Eu, como os outros envolvidos na conversa, para além de ciclista (ou utilizador das bicicletas, já que às vezes acho presunçoso denominar-me de ciclista!) sou também automobilista e em qualquer um dos papéis privilegio o bom senso e condeno o chico-espertismo, tanto da minha parte como da parte dos outros. Mas também erro, não sou perfeito. Ah, como automobilista pago seguro, imposto de circulação, inspeção…, coisas que fazem sentido para os automóveis, não para as bicicletas!

Claro que também foi abordado o acontecimento trágico deste fim de semana, um acidente de viação que envolveu um veículo automóvel e uma bicicleta, tendo resultado na morte de um jovem ciclista. Muito triste e lamentável. Uma situação que deixou um clima de pesar e consternação no meio e não só, e que tendo em conta as circunstâncias e o local do sucedido, traz à consciência o pensamento de que podia ter acontecido a qualquer um de nós…

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