Mais um temporal, mais marcas que ficaram. Por mais que estejamos habituados, custa sempre! Contigências de viver no meio do Atlântico. A oriente, fomos poupados, mas a natureza mostra o seu poder. O mar fustiga a terra enraivecido, numa luta desigual. Mais do que a atração pelo trágico, é a sua beleza que cativa. É sempre belo! Em contemplação, esmagado pela sua imponência. Apanhando o vento salgado de sul…
Peguei-lhe pelo braço e disse: - Vamos! Ela acedeu. Iniciei o diálogo, a tentar medir-lhe o pulso. Impávida! A caminhada leva-nos por caminhos algo tortuosos. Apercebo-me da dificuldade… Nisso, ela reage com brusquidão! Ia perdendo o equilíbrio… Mas não vacilei. - Olha, vamos por aqui! Fomos sem oposição. Avistamos o mar. - Paramos? Não responde. Apenas posa relaxada para a fotografia.
Sinto o mesmo gosto. A mesma satisfação de conseguir lançar o pião com êxito! Estava na primária e lembro-me. Sair da escola a correr, lanchar à pressa e ir jogar ao pião, incansavelmente. Eu e os outros. Existem coisas que nunca se deixa de gostar. Coisas que nunca se deixa de saber fazer…
Arranca à pressa para não ter de, mais uma vez, regressar quando já o sol se pôs. Os dias mais curtos não desmotivam a vontade de dar mais umas pedaladas. Mais do que a prática física em si, que acaba por ser limitada, está em causa aproveitar o dia da melhor forma possível e esperar que o vento que lhe bate na cara alivie também a carga negativa que traz consigo, após mais um dia de trabalho. A mim, que tenho a mania da perfeição, irrita-me a leviandade com que lida com certas situações, mas depois, num breve momento introspetivo, admito que às vezes devia pensar menos e fazer mais, como ela.
Habituei-me a ser o sobrinho. Apesar de ser o mais velho dos primos, sempre fui do grupo dos rapazes e não dos adultos. Ainda sou!
Tenho 43 anos. Envelhecer não me apoquenta, nem mesmo a ideia da morte. Digo, sem modéstias, que estou numa das minhas melhores formas físicas de sempre. E não só. Já fui mais novo, claro, mas demasiado limitado e velho de espírito e mentalidade!
Hoje falava com um miúdo no ginásio. Claramente um endomorfo. Mais uns centímetros na altura e 20 quilos do que eu. Dizia-lhe que tinha uma boa base para ficar com um corpo porreiro se se dedicasse. Queria eu, ectomorfo conformado que sou... Perguntei-lhe a idade – 23 anos!
Fogo! Tenho mais 20 anos!
Lixado, porque se tivesse a atitude e o conhecimento que tenho hoje, e tivesse 23 anos… Mas orgulhoso, por ter mais 20 anos e servir de exemplo!
Só dou pela idade através da lentidão da recuperação física, seja de um exagero, asneira ou lesão. E pela rapidez com que se apanham. Por causa do sacana do meu joelho esquerdo. Lapsos de memória. E a pior de todas, quando pessoas mais jovens, não necessariamente crianças, me tratam por senhor!
Senhor?!
Eu que sempre fui dos rapazes? Eu é que chamava por senhor aos outros!
*Até a música que ouço é música de rapazes, mas rapazes do século XX...