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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Velocidade de cruzeiro, ou não!

Segunda-feira, primeiro dia da última semana do mês. Um dia muito agitado na cidade de Ponta Delgada. Estavam quatro navios de cruzeiro atracados! Para uma cidade pequena, considerando todo o movimento inerente e o número de passageiros desembarcados, o congestionamento no trânsito foi um dos primeiros sinais de que algo fora do comum se passava. Isso se se estivesse muito distraído e não se reparasse na forte presença que estes barcos impõem.
Não sou grande adepto, confesso. Por isso vai ser difícil apanharam-me a tirar fotografias ou “selfies” com os ditos a servirem de pano de fundo. E também ainda não consegui perceber o real impacto da sua vinda, medindo os prós e os contras de forma rigorosa. Mas isso já é outra conversa…
Hoje, mais do que nunca, nem quero ouvir falar do carro, até porque já senti a lentidão do trânsito logo pela fresquinha, inevitavelmente. A bicicleta sim, faz todo o sentido, mesmo sabendo que terei de andar com especial atenção na ciclovia do costume por causa do anormal fluxo pedonal, situação que (já) não me chateia especialmente. Se quero que os automobilistas sejam compreensivos comigo também tenho de o ser com os peões. Faz parte.
Filas de trânsito automóvel compactas e a moverem-se a passo de caracol, em ambos os sentidos da marginal. O menor volume da bicicleta permite desenvencilhar-me da lenta progressão, mas com calma e cautela. Foi com agrado que vi alguns condutores facilitarem-me a passagem, o que agradeci com um baixar de cabeça. Também houve quem tentasse atrapalhar, mas este não merece destaque.
Com o recurso à bicicleta não tive de fazer nenhuma alteração especial à minha rotina diária. Já com o automóvel, as coisas foram um bocadinho diferentes…

Do “Fit” e do “Detox”

Sou um adepto convicto do exercício físico e de hábitos de vida saudáveis. Mas muito pouco fundamentalista. Comecei relativamente tarde, mas já fiz um pouco de (quase) tudo.
Hoje, revejo-me menos em ginásios e menos ainda em manias que se instituem de certos exercícios, da alimentação e da suplementação alimentar. Sim, gosto de aveia e de chá, mas recuso a euforia "detox". E gosto de ginásios, embora já não frequente, pois não faltam locais para exercitar o corpo muito mais acessíveis e aprazíveis. Não meço nem partilho tempos, quilometragens, calorias.
Pensar no bem-estar físico não é ir ao ginásio e comer saladas, é ter alguma parcimónia sentado à mesa (mas com direito a excessos ocasionais) e fazer trocas tão simples como ir pelas escadas em vez de ir no elevador, ou ir a pé em vez de pegar no carro para fazer uma deslocação ridiculamente curta.
Adoro bicicletas e faço por as usar, até pela sua componente prática e utilitária onde se junta o útil ao agradável, para além do lazer e do desporto. Mas lá está, nem toda a gente tem de gostar ou andar de bicicleta...
Coisas tão simples como caminhar à beira mar ou no meio da natureza são física e mentalmente revigorantes. O corpo e a mente devem ser trabalhados em equilíbrio e harmonia.
Não, não quero viver até aos cem anos e envelheço sem complexos, mas o tempo que viver que seja o melhor possível, até porque quando outros departamentos da vida falham, neste a satisfação pessoal está garantida.

O muro!

É curioso que as histórias mais engraçadas e que mais ficam na memória serem sempre sobre quedas e acidentes ou outras desgraças, não é?
Esta é mais uma história de outros tempos, no caso, sobre mim, a minha bicicleta e um muro.
Quando já era mais crescido tive uma bicicleta de estrada que o meu pai tinha trazido dos Estados Unidos da América. Foi a primeira vez que andei numa bicicleta de estrada. Esta bicicleta, na altura e para mim que queria era uma BMX, era um bocado esquisita! Tinha um guiador estranho, todo curvado para baixo. Além disso, tinha umas rodas muito fininhas. E uns travões pouco acessíveis. Eram as bicicletas que os ciclistas profissionais usavam nas corridas de estrada que apenas via na televisão.
Estava então a andar de bicicleta no bairro com o meu irmão, como era costume, mas agora do lado de fora. Lado que só era permitido agora que eramos maiores, já que antes só lá íamos de fugida às escondidas. É que aqui já havia uma rua movimentada, embora tivesse um passeio bastante largo, com umas grandes árvores. Algumas raízes destas árvores faziam elevações no passeio que pareciam rampas de saltos.
A parte mais interessante de andar do lado de fora do bairro eram exatamente os saltos. Então, pedalávamos o máximo que podíamos para tomar balanço e saltávamos com as bicicletas nestas elevações. A maior, portanto, a mais desejada, era a que ficava mais próxima de um muro. Tendo o meu irmão como espetador, afasto-me e dou meia volta, e venho a toda a velocidade de encontro à maior elevação do passeio. Salto e continuo a avançar com velocidade, cada vez mais próximo do muro…
De mãozinhas plantadas no topo do guiador percebi que não chegava aos travões… e o muro a aproximar-se rapidamente!
- O que é que eu faço? – pergunto, em pânico, ao meu irmão.
– TRAVAAA!!! – grita ele.
Já não deu tempo… E fui de frente contra o muro!
PAMMM!!!

A corrida de bicicleta!

No meu tempo de criança não existiam tantas preocupações como hoje. Andava-se de bicicleta sem proteções de segurança e não se vestiam roupas próprias, até porque não se viam. A rapaziada andava e brincava mais à vontade na rua, e divertia-se muito. Não haviam tantos perigos como agora e os pais eram mais descontraídos.
Como qualquer miúdo gostava muito de andar de bicicleta. Costumava andar sempre com o meu irmão, mas também com os nossos amigos do bairro. O bairro era um belo sítio para jogar à bola e andar de bicicleta, já que tinha relvados rodeados por passeios que pareciam ruas, onde fazíamos corridas de bicicleta e outras brincadeiras. Também se jogava ao pião, ao berlinde e apanhava-se borboletas, ou pelo menos tentava-se.
Certa vez, eu e o meu irmão fizemos uma corrida. Rapazes e a tendência para as corridas…
Subimos até ao topo do bairro para depois descermos a toda a velocidade. Os dois queriam chegar primeiro e faziam tudo para consegui-lo. Sendo mais velho, ainda antes do meio da descida comecei a ultrapassá-lo e ele mais não fez do que tentar impedir a minha manobra. Com isso, ficamos a pouca distância lateral um do outro e quando já tomava a dianteira, a manete do travão da bicicleta do meu irmão prende no aro cromado que suportava o selim da minha bicicleta (eram duas Sirla laranja de selim corrido e guiador alto), o que fez com que perdesse o equilíbrio, dando uma aparatosa queda!
Ele desatou a chorar e eu parei e aproximei-me dele sem saber o que fazer. Com o barulho da queda e do choro, o nosso pai veio a correr para ver o que tinha acontecido.
- Como é que isto aconteceu? Eu não vos disse para terem cuidado? – perguntou visivelmente preocupado e irritado!
O meu irmão continuou a chorar e eu apenas encolhi os ombros…
Depois de ver que tinha sido mais o susto da queda e que o meu irmão não se tinha magoado, o nosso pai disse:
- Vá, acabaram-se as corridas, vamos para casa. E ficam já a saber que estão os dois de castigo. Só voltam a andar de bicicleta quando eu disser!
As corridas nem sempre correm bem. Nesta, ninguém chegou em primeiro, um acabou no chão a chorar e o outro amuado. O nosso pai zangou-se com os dois e, depois em casa, a nossa mãe também. Uma das bicicletas ficou maltratada. Mas, pior mesmo foi termos ficado de castigo sem saber quando é que voltaríamos a andar de bicicleta.

“100 pedais”

Já se passou uma década. Começou a andar de bicicleta muito cedo. O avô materno ofereceu-lhe uma no seu primeiro aniversário. Não se lembra efetivamente, mas é algo de que se orgulha. Aliás, a bicicleta ainda a tem e não há intenção de algum dia se desfazer dela!
Não é uma bicicleta qualquer, mas uma bicicleta de equilíbrio. Basicamente só tem o quadro, duas rodas, guiador e selim. Pois, não tem nem pedais, nem travões, mas é exatamente isso que faz dela a escolha certa para aprender a andar de bicicleta. Ah, tinha uma campainha, mas um dia pediu ao pai para a tirar e nunca mais apareceu…
Na verdade, o avô apenas a pagou porque quem a escolheu foi o pai, supostamente mais entendido no assunto. Mesmo assim, na altura, houve alguma hesitação já que era uma novidade, tanto que foi a primeira do género a ser vendida.
Ainda nem sabia andar (a pé) e já andava de bicicleta. Com o pai ou a mãe a empurrar-lhe, claro. Um ano depois, já se equilibrava sozinho e andava com ela por todo o lado.
Mais tarde, o pai explicou-lhe que, ao contrário do que muitas pessoas pensavam, a bicicleta de equilíbrio, sem pedais, era a melhor forma de aprender a andar de bicicleta, por ser a mais rápida, natural, intuitiva e independente.
Gosta muito da sua bicicleta sem pedais. Às vezes ainda dá umas voltinhas nela, mesmo já sendo tão pequena para ele.
Tem e já teve outras, de diferentes tamanhos, com pedais e restantes acessórios. Já andou mais ou pelo menos com outra frequência, já que existem novas solicitações, mas não o remetem para o sofá e para os ecrãs, pelo contrário, sendo igualmente benéficas.
Uma década depois, a ausência deu lugar à inclusão. Dos pedais, mas não só. A partir de agora o percurso poderá ser feito a dois... Ou não! Certo é que para além do gosto pelas bicicletas, partilha com o pai o gosto pela escrita, demonstrado com o texto “A minha vida de bicicleta”, com o qual se estreia neste espaço e que se pode ler abaixo.

A minha vida de bicicleta

Olá! Eu chamo-me Specialized Tarmac, mas se quiserem, podem-me só chamar de Tarmac.
A minha vida é muito boa! Bem, depende dos momentos.
Eu sou feita de carbono, o melhor material de uma bicicleta. Por isso é que sou do topo de gama da minha família.
Eu nasci numa fábrica e depois mudei-me para São Miguel. Morava numa loja da minha marca chamada “Carreiro”. Lá estava cheia de amigas, mas certo dia tive de me despedir delas, pois compraram-me. Quem me comprou, deu um monte de dinheiro por mim, pois como já vos disse, sou do topo de gama.
A pessoa que me comprou deu-me muito carinho. Enchia-me os pneus, metia-me óleo na corrente, etc… E o melhor de tudo é que me dava bastante uso, apesar de às vezes meter-me sozinha num sítio a que os humanos chamam de “garagem”, mas faz parte.
Conheço muitos sítios, graças aos passeios que já dei com o meu dono. Conheço as Furnas, as Sete Cidades e até o Pico do Fogo. Ainda conheço mais, mas se disser, vou ficar aqui muito tempo.
Apesar de conhecer muito bem o meu dono também conheço as pessoas que me arranjam em coisas mais graves. Até sei os nomes!
A minha melhor amiga chama-se Specialized Roubaix.
A minha vida ainda tem mais por contar, mas agora vou até São Brás com o meu dono.
Adeus!

Tomás Pereira, 03/2018

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