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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

30.10.20

Tenho pena…


Rui Pereira

Tenho pena que certas coisas já não tenham a regularidade de outros tempos. Que certas pessoas já não marquem a mesma presença. Perderam-se opiniões e pontos de vista, suspendeu-se uma relação de amizade e simpatia, emperrou-se uma dinâmica que, a meu ver, era benéfica para todos. Tenho pena.
Isso, porque as coisas evoluíram naturalmente e surgiu uma interação curiosa, com quem menos esperava, admito. Se inicialmente estava certo de que não iria acontecer, nem faria falta, hoje já não penso exatamente da mesma maneira.
Um introvertido defensor convicto da interação cara-a-cara, ao invés da virtual, pode parecer um paradoxo. Mais ainda, quando tem muito mais facilidade em concretizar esta última e acredita conseguir viver relativamente bem sem nenhuma.
Ia escrever sobre bicicletas, mas comecei a divagar... O certo é que foram elas o móbil da interação que surgiu e que parte dela agora lamento ter deixado de existir.

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29.10.20

Cidades cicláveis

Da comodidade à comodidade!


Rui Pereira

Quando se fala em melhorar a mobilidade nas cidades e se associam as bicicletas como peças importantes para este fim, pensa-se logo em ciclovias. Estes são equipamentos fundamentais para tornar mais atrativas as deslocações com um meio de transporte suave, mas não podem ser pensadas de forma isolada e sem uma estratégia abrangente, onde vários aspetos terão de ser levados em consideração.
Não basta criar percursos cicláveis para as pessoas começarem a pedalar. É preciso que estes façam sentido, assentando numa lógica de integração urbana. Construções avulsas e descontextualizadas, só porque pretendem refletir uma preocupação tão atual, são inúteis.
Desde logo, deve partir-se do princípio de que as cidades deverão ser um espaço para as pessoas e não para os automóveis. E não, isso não representa de todo a mesma coisa. Uma cidade atafulhada de carros, estejam estes em circulação ou estacionados é uma cidade claustrofóbica, espartilhada, poluída, pouco segura e nada amigável para as pessoas.
A construção de uma ciclovia deve ter como base a visão da bicicleta como meio de transporte e veículo de lazer, tal como tentar articular todas as ligações fundamentais entre zonas residenciais, comerciais, culturais, lúdicas e verdes.
Mas as ciclovias só por si não garantem a melhoria da mobilidade urbana, nem a devolução das cidades às pessoas, até porque em muitas situações são difíceis ou mesmo impossíveis de concretizar na malha urbana existente.
Uma rede de percursos cicláveis, mesmo que convenientemente pensada, nunca terá uma abrangência total, portanto, terão de haver medidas associadas no sentido de facilitar a coexistência e a partilha das vias, onde a acalmia do trânsito automóvel é fundamental.
Os princípios e as motivações, por mais relevantes que sejam, não bastam para a mudança. É preciso que se sinta mais segurança nas estradas. São precisas mais condições de locomoção, intermodalidade e parqueamento que facilitem a vida às pessoas, para que mais facilmente se troque a comodidade do automóvel pela comodidade da deslocação em bicicleta. Só com esta realização é possível perceber verdadeiramente a dimensão de todos os ganhos gerais e particulares associados.

28.10.20

"A mecânica das letras"


Rui Pereira

Tenho visto nas redes sociais (Instagram) várias pessoas a revisitar o seu passado em jeito de “memórias”. Não tenho passado no Instagram porque a minha presença é demasiado recente. Mas mesmo que tivesse não vejo grande utilidade e sentido em fazê-lo. Contraditoriamente, recupero agora um texto de 2013 onde refleti sobre a importância das letras/palavras/escrita na minha vida. Principalmente agora que tenho andado tendencialmente afastado e com algumas dúvidas, esta reflexão ganhou relevância...
Algumas coisas mudaram, outras estão exatamente na mesma.


A mecânica das letras

Queria ser engenheiro mecânico. Sempre tive curiosidade no sentido de perceber o funcionamento das coisas. Sempre gostei de montagens, de engrenagens, de motores, de manuais, de esquemas. De os seguir. Soube por familiares que desde tenra idade, nas minhas viagens de carro, conseguia identificar as marcas de todos os carros que se cruzavam connosco. Associava muito a mecânica ao ramo automóvel. Gostava de veículos motorizados, inicialmente foram os carros, posteriormente as motos, nas quais fiz muitos quilómetros. Neste momento encaro os carros como meros meios de transporte. De moto (scooter) ando praticamente por obrigação. O gosto persiste, mas a paixão foi direcionada para as bicicletas, donas de uma eficiência imbatível. Preparação física, simplicidade, economia, desafio e prazer, associados… Está tudo dito!
Mas não é de locomoção que pretendo falar... A engenharia ficou pelo caminho. Deparei-me com um obstáculo intransponível, a matemática! Agradeço à minha professora do ciclo, que tinha tanto de feia como de má professora. Passei os anos seguintes numa fuga constante dos números, tomando opções ora contraditórias, ora desconexas.
O meu destino seriam as letras. Depois de alguns desaires, em consequência da falta de objetivos, senti-me confortável e seguro nesta área, pelo menos no que toca à escrita. O facto é que me expressava muito melhor através da escrita, comparativamente com a oralidade. Ainda hoje acontece.
De qualquer forma, nunca senti que tivesse alguma aptidão especial para escrever. Só comecei a aperceber-me que eventualmente poderia ter algum jeito quando várias pessoas começaram a dar atenção e credibilidade aos textos que escrevia no fórum online do principal clube motard micaelense, do qual fazia parte. Foi nesta altura que percebi que articulando gosto, experiência e conhecimento, com uma escrita genuína, clara e correta conseguia exprimir ideias assertivas e bem argumentadas.
Comecei realmente a gostar de escrever, numa altura em que lia muito, mas apenas revistas de motos. Mais tarde, com o ingresso no ensino universitário, alarguei consideravelmente o leque das minhas leituras, tal como das temáticas que passei a dar atenção. Se por defeito académico a educação escolar, profissional e social ocupava um lugar de destaque, comecei também a desenvolver interesse pela psicologia e pelos comportamentos humanos.
Neste momento os livros são um dos meus maiores vícios. Psicologia, autoajuda, sociologia, filosofia e educação são as minhas áreas preferidas. Já a ficção ainda não descobri convenientemente. E continuo a gostar muito de revistas, não necessariamente de motos.
Se calhar as letras sempre foram o meu elemento (aptidão + paixão), eu é que ainda não tinha descoberto. É com as letras que me sinto bem. É escrevendo-as que melhor me sei expressar. É sobre elas que reflito. É com elas que faço a minha autoanálise.
A mecânica entre a leitura e a escrita tem funcionado. Quanto mais leio mais vontade tenho de ler e escrever e vice-versa. Talvez falte juntar aqui um terceiro fator, o dom da palavra. Inúmeras vezes assisto a palestras onde se produzem discursos altamente significativos, motivadores e cativantes, onde os palestrantes conseguem a atenção e o interesse de grandes plateias. Mesmo consciente das minhas limitações neste departamento, dou por mim a sonhar…

Rui Pereira, 2013/12/12

27.10.20

Bikes & Skates


Rui Pereira

O surf, como modalidade desportiva, é apelativo. Mas chateia-me a dependência de vários fatores naturais para ter as condições mínimas para a sua prática. Independentemente disso, não devo fazê-lo por limitações físicas, preferindo não correr riscos sob pena de meter em causa outras práticas prioritárias para mim. Assunto arrumado.
Já o surfskate é outra conversa. Exemplo de um domingo agradável é ter a manhã ocupada a pedalar e a tarde a rolar em cima do meu skate, aqui, já na companhia do meu filho.

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A idade e uma forma própria de encarar estas coisas fazem-me agir descontraidamente e sem grandes objetivos. Na bicicleta pedalo com gosto até alcançar aquela hora razoável para o almoço. Contabilidades? Estatísticas? Deixo-as para outras áreas onde serão imprescindíveis. No skate ando para cá e para lá tentando algumas variações e mudanças de direção, dentro das minhas limitações técnicas. E sento-me, observo, troco palavras e volto a andar. As manobras, no verdadeiro sentido da palavra, deixo-as para quem realmente percebe disso.

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Comecei tarde, mas sem complexos. E não tento recuperar o tempo perdido a todo o custo. Pelo contrário, fico muito satisfeito por ter tido esta abertura e hoje conseguir usufruir de uma modalidade que um dia julguei completamente fora de questão. Falo principalmente do skate, mas se pensar bem, também já aconteceu com as bicicletas, quando um dia julguei que não seriam uma possibilidade no futuro.
O futuro é hoje. E, por incrível que pareça, as bicicletas e os skates estão mais presentes do que nunca!
São estes modestos objetos que me asseguram bem-estar, descontração e divertimento. Que me fazem aliviar o peso dos problemas e das minhas frustrações. Que me proporcionam um domingo mais significativo e agradável. E quem diz domingo diz outro dia qualquer…

26.10.20

Bicicletas únicas, sensações únicas!


Rui Pereira

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No meu último texto, repleto de questões, mencionei algo que é inquestionável. Adoro as sensações e a ligação que tenho com as minhas bicicletas no geral, mas que são substancialmente mais fortes e relevantes com as minhas bicicletas de carreto fixo. É inquestionável. Desde logo pela sua estética e conceito, perfeitamente alinhados com as minhas preferências, onde pureza e simplicidade lideram. Depois, já aos seus comandos, pela combinação entre desafio e divertimento, onde sou chamado a mostrar certas habilidades raramente requeridas. As suas particularidades exigem entrega e dedicação, e isso gera uma proximidade e uma ligação muito superiores. As dificuldades encontradas acabam por ser relativizadas dando lugar à normalidade e fluidez possíveis. As bicicletas de carreto fixo são únicas e transmitem sensações igualmente únicas. E eu… bom, eu adoro isso!

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23.10.20

Estar ou não estar?


Rui Pereira

No meio da apatia sou abanado por frases simples, mas poderosas, que veem ao encontro daquilo que sinto, pelo menos quando estou menos adormecido. Fui parando e perdi tanto a dinâmica como o rumo. Perdi a boleia, diminuiu o interesse. Fiz 180 graus e deixei-me levar.
Meto em causa as minhas opções. Questiono-me…
Será que tudo isso vale mesmo a pena?
Porque não viro costas e faço apenas o que tiver de fazer?
Haverá alguém que quer realmente saber da minha opinião?
O virtual também é o meu mundo, mas soa-me demasiadas vezes a perda de tempo. Sei que faço algo diferente, mas será que esta singularidade não se traduz em inutilidade?
Será que esta minha certeza não soará a cagança?
Não estarei demasiado focado em impor a minha verdade e em receber o devido retorno?
As sensações, a estética, a simplicidade, o divertimento, a pureza e a conexão que adoro são assim tão excêntricas?
Se calhar devia continuar o meu trajeto em silêncio, no anonimato... mais ainda. Um introvertido até lida bem com isso, mas a sua génese social, também presente, impele-o a fazer o contrário. Nem que seja para ocasionalmente dizer «eu estou aqui!»
Estarei mesmo?

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