Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Bike Azores

A experimentar o verdadeiro sentido da palavra liberdade!

14.09.21

A Sirla

BTT de outros tempos!


Rui Pereira

Tinha 19 anos quando comprei uma bicicleta de montanha nacional - Top Sirla.
Foi uma tentativa de regresso às bicicletas que durou muito pouco, infelizmente. Em poucos meses estava a vendê-la, para só voltar aos pedais mais de uma dúzia de anos depois.
Um dia destes, andava eu a limpar o carro quando vejo o meu vizinho trazendo a sua Sirla pela mão. Fartou-se de achar que um dia ia andar com ela. Ia para o lixo!
Nem é preciso dizer mais nada…

sirla.jpg


Via muitas vezes esta bicicleta na garagem do meu vizinho. E até pensava: «Ele nunca anda com aquilo, está ali parada desde sempre… eu ficava com ela!»
Chegou o dia. E veio carregada de extras: um suporte de garrafa, uma bomba de enchimento de pneus, um cabo antirroubo (sem chave) e muita, mas muita ferrugem!
São mais de 25 anos de idade e de falta de uso, e estava um “pouco” pior do que parecia. Mesmo assim, para minha grande surpresa (e do meu vizinho também), depois de lhe encher os pneus andou como se já não andasse apenas há uma semana! Depois, já tinha um dos pneus vazios e os cabos quase se desfaziam...

sirla_manutencao.jpg


Ideia: metê-la a andar gastando o menos possível. Ou nada, se possível.
Entretanto, comprei uns pneus baratos (as camaras-de-ar já tinha) e uns cabos de aço. Os punhos de esponja originais serão substituídos por uns semelhantes que também tenho. E está feito.
Se se partir ao meio, tiro-lhe os pneus e os punhos… e que descanse em paz!

30.04.21

Explicação


Rui Pereira

Saio tarde e não determinado. A progressão no terreno faz-se lenta e de improviso. Apreensivo por natureza, o entusiasmo surge progressivamente, à razão com que passo por locais entretanto esquecidos. Boas memórias me trazem. As pedaladas misturam antagonismos – fluidez e tensão. O foco no que está para vir não me impede de usufruir. O trilho único, visivelmente marcado por uma roda motorizada, está perfeito. A vegetação domina sem se intrometer. O piso apresenta-se suave e aderente sem estar pesado, fluído e divertido sem ser muito rápido. Cheguei, voltei para trás, avancei novamente. Incrível. Como gostava de ter alguém comigo para partilhar este momento. Alguém que experimentasse e sentisse o mesmo que eu. Alguém que compreendesse o prazer de pedalar nestas circunstâncias. Existe uma frase aplicada ao mundo motorizado que diz não valer a pena explicar aos outros a razão de andar de mota, pois para quem compreende nenhuma explicação é necessária, para quem não compreende nenhuma explicação é possível. Aqui, também se aplica.


fsrxc_singletrack.jpg

 

10.11.20

Recordar


Rui Pereira

Foi no dia em que a fui buscar que senti logo a exigência e a minha falta de preparação. Quando voltei às bicicletas há 12 anos atrás, arranquei da loja montado com destino a casa. Cerca de 15km, sendo boa parte deles pouco favoráveis ao nível da inclinação. Custou-me, mas foi um relembrar de outros tempos, uma formação prática e intensiva da bicicleta e do seu uso.
O primeiro passeio em grupo também serviu para fazer algumas aferições. Destreza e técnica: assim-assim; forma física: baixa. Mas lá fui com as minhas dificuldades. Foi também importante para voltar a sentir aquele gostinho pelo fora-de-estrada, entretanto adormecido, e conhecer alguns trajetos que repetiria por diversas vezes, tal era o prazer proporcionado.
Outros passeios em grupo vieram, entre família, amigos e colegas, mas os que recordo com mais saudades são em dupla, eu e o meu tio. Grandes manhãs, grandes pedaladas. Com o tempo vieram as evoluções, quer ao nível das bicicletas, quer do à vontade com que encarávamos as dificuldades físicas e técnicas. E claro, do prazer que tirávamos destas mesmas pedaladas.
Nunca ouvi uma queixa da sua boca. Um dia, disse-me satisfeito que fazia aquela descida com cada vez mais confiança e velocidade. Eu sentia o mesmo, fosse nesta descida ou noutro local específico dos nossos percursos habituais. Aliás, via-me a passar nestes mesmos locais em pensamento, tal era o gosto. Contava os dias para chegar ao domingo!
Lembro-me do silêncio, da ausência de palavras. Da descoberta. Do som do vento, do rolar dos pneus sobre terra, pedras e lama… do partir dos galhos à nossa passagem. Do roçar da bicicleta e do corpo na vegetação. Dos sustos. Das travessias de ribeiras. Daquela passagem no limite bem-sucedida. Cada um por si, mas ao mesmo tempo acompanhados.
E lembrei-me disso tudo porque domingo passei numa canada que fizemos tantas vezes. Sonhava com o seu gancho final que fazia em derrapagem e que nos levaria para outra bastante mais exigente e espetacular, onde as condições eram sempre uma incógnita. Então se chovesse de véspera... Já ia ansioso a descer aqueles metros de ligação em betão!

globe_sta_barbara.jpg
Algures em Santa Bárbara, Ribeira Grande 

02.11.20

Pedala, pula e salta!


Rui Pereira

Depois de várias semanas a sair sempre com a mesma bicicleta, tenho andado mais democrático. Seja pelas condições atmosféricas menos favoráveis, seja pela menor disponibilidade de tempo da minha parte, o facto é que tenho recorrido aos préstimos da minha bicicleta de todo-o-terreno, normalmente, uma das que menos uso tem.

FSRxc_monteverde.jpg
(Há duas semanas atrás)


A hegemonia dos pneus finos, da ausência de mudanças e do carreto fixo deu lugar aos pneus volumosos e cardados, às 27 velocidades e às suspensões de curso generoso, o que representa uma grande diferença. Muda o trajeto, as dificuldades, o conforto, o tipo de piso e até a atitude.
Embora esteja muito mais ligado à estrada e às minhas bicicletas de pneus finos, principalmente as mais radicais - fixed-gear, o BTT, entretanto relegado para segundo plano, é uma modalidade do ciclismo pelo qual tenho sempre um gosto especial e me dá muito prazer. E isso vem ao de cima sempre que monto a minha bicicleta de suspensão total, com a sua fantástica versatilidade e polivalência. Anda em todo o lado, passa por cima de tudo… é um à vontade!

FSRxc_santana.jpg
(Ontem)


Depois de me habituar à zoadeira advinda do atrito entre os tacos de borracha e o asfalto, e ao chiar dos travões de disco sempre que apanham humidade, é só desfrutar… é um entra e sai da terra, é um sobe e desce passeios, é um levanta e baixa a roda, é um pula e salta…

15.07.20

BTT – Sustos vs. Prazer


Rui Pereira

O meu colega queixou-se de um raio partido numa das rodas, depois de uma volta com a sua bicicleta de todo-o-terreno.
Lembrei-me da minha e do tempo que está parada…
Trouxe-a pelas escadas ao estilo carrinho de mão, sacudi o pó acumulado sobre o selim e ajustei a pressão de ar nos pneus. Enfiei a garrafa de água no suporte.
Fui buscar os meus velhinhos sapatos de btt, ocultos que estavam debaixo de umas sapatilhas de andar por casa. Reparei que um deles já perdeu um pedaço da sola, que me faz andar de pé inclinado. Da última vez que os vi acho que não estavam tão velhos?!
Já a minha Specialized FSRxc com mais de uma década parece sempre nova!
O terreno bastante seco e com alguma pedra solta, somando os factos de nunca mais ter andado fora de estrada e a abundante vegetação presente poder esconder algum obstáculo, fez-me empregar alguma cautela no andamento.
Seja como for, os sustos que apanho nos trilhos aos seus comandos, nunca chegam para rivalizar com o prazer proporcionado.

FSRxc_trilho.jpg

09.03.20

O rolar dos pneus na gravilha e o cantar dos melros-pretos


Rui Pereira

Estava vestido de claro, destinado a sair para a estrada com a bicicleta correspondente. Abri a janela e caía um chuvisco. Ora parava, ora recomeçava. Chão molhado. Mudei de roupa, para escuro, deixei ficar a bicicleta de estrada e peguei na btt.
O tempo não estava muito mau, mas estava inconstante. Se não tivesse alternativa iria para a estrada na mesma, mas tendo, fui para a terra. Para o efeito estava excelente, eu que gosto especialmente de piso húmido.
Andei às voltas, para trás e para a frente, durante um par de horas, não me afastando muito do ponto de partida. Fugi do asfalto o máximo que consegui. Andei nos mesmos locais de sempre, com o mesmo gosto de sempre.
Ando muito mais na estrada, é-me mais conveniente e suja menos a bicicleta, mas andar na terra, longe dos carros, com os obstáculos e o controlar da bicicleta, com as cores - o verde, no silêncio - só com o som do rolar dos pneus na gravilha e o cantar dos melros-pretos.

specialized_fsr_xc.jpg