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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

24.11.20

As bicicletas não são tudo, mas são muito!


Rui Pereira

A minha verdade e a minha razão e aquilo que sinto, são exatamente isso. Exponho-o porque quero e porque me faz sentir bem.
É sempre um desafio traduzir em palavras aquilo que sinto e porque o sinto, numa partilha descomprometida e sincera.
Defendo a minha razão com veemência, mas sem a impor. É apenas a minha razão que exponho. Tenho esta vontade. Tenho este gosto. Tenho esta facilidade, dentro da dificuldade.
Faço-o por mim, porque acho que sou diferente e que posso fazer a diferença. Num texto, numa frase, numa palavra, num pormenor, onde posso revelar o meu rumo, a minha realidade e os meus sonhos. Subtilmente.
Falo de bicicletas com autoridade, mas, acima de tudo, com elevada proximidade. Personifico-as. Atribuo-lhes o estatuto de companheiras e confidentes. Abordo-as de mente aberta e com sensibilidade.
Dispenso o meu pragmatismo sem esquecer o seu valor prático, mas as bicicletas são muito mais do que isso. A harmonia com que congregam os mais variados fatores de excelência é rara.
As bicicletas não são tudo, mas são muito!

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30.10.20

Tenho pena…


Rui Pereira

Tenho pena que certas coisas já não tenham a regularidade de outros tempos. Que certas pessoas já não marquem a mesma presença. Perderam-se opiniões e pontos de vista, suspendeu-se uma relação de amizade e simpatia, emperrou-se uma dinâmica que, a meu ver, era benéfica para todos. Tenho pena.
Isso, porque as coisas evoluíram naturalmente e surgiu uma interação curiosa, com quem menos esperava, admito. Se inicialmente estava certo de que não iria acontecer, nem faria falta, hoje já não penso exatamente da mesma maneira.
Um introvertido defensor convicto da interação cara-a-cara, ao invés da virtual, pode parecer um paradoxo. Mais ainda, quando tem muito mais facilidade em concretizar esta última e acredita conseguir viver relativamente bem sem nenhuma.
Ia escrever sobre bicicletas, mas comecei a divagar... O certo é que foram elas o móbil da interação que surgiu e que parte dela agora lamento ter deixado de existir.

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23.10.20

Estar ou não estar?


Rui Pereira

No meio da apatia sou abanado por frases simples, mas poderosas, que veem ao encontro daquilo que sinto, pelo menos quando estou menos adormecido. Fui parando e perdi tanto a dinâmica como o rumo. Perdi a boleia, diminuiu o interesse. Fiz 180 graus e deixei-me levar.
Meto em causa as minhas opções. Questiono-me…
Será que tudo isso vale mesmo a pena?
Porque não viro costas e faço apenas o que tiver de fazer?
Haverá alguém que quer realmente saber da minha opinião?
O virtual também é o meu mundo, mas soa-me demasiadas vezes a perda de tempo. Sei que faço algo diferente, mas será que esta singularidade não se traduz em inutilidade?
Será que esta minha certeza não soará a cagança?
Não estarei demasiado focado em impor a minha verdade e em receber o devido retorno?
As sensações, a estética, a simplicidade, o divertimento, a pureza e a conexão que adoro são assim tão excêntricas?
Se calhar devia continuar o meu trajeto em silêncio, no anonimato... mais ainda. Um introvertido até lida bem com isso, mas a sua génese social, também presente, impele-o a fazer o contrário. Nem que seja para ocasionalmente dizer «eu estou aqui!»
Estarei mesmo?

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23.09.20

Compromisso


Rui Pereira

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Todas as vezes que monto nas minhas bicicletas de carreto fixo é como se tivesse assinado um contrato de exclusividade, onde me comprometi aceitar todas as contrapartidas em troca de mais-valias.
Existe um compromisso da minha parte. Uma vontade deliberada de as pedalar. Se em tempos isso limitou o meu leque de opções, hoje já não acontece. A fusão entre gosto, compromisso, prática e hábito fizeram-me ver que as limitações eram muito mais pessoais do que técnicas.
Mesmo que existam pontualmente, o gozo que me proporcionam e a capacidade de me deixarem orgulhoso e realizado é tanta que fazem esquecer rapidamente estas mesmas limitações. Menosprezava a expressão “é uma questão de hábito”, mas é mesmo. A partir do momento que tirei as limitações da cabeça e comecei a sair preferencialmente com elas, tudo mudou!
O facto, é que nunca assinei contrato nenhum. O enorme gosto e a minha entrega fizeram com que tudo acontecesse naturalmente e de forma progressiva. Se me comprometi, está comprometido. E se antes dizia “vou levar a fixie, portanto, é uma volta mais pequena” hoje planeio fazer com elas o mesmo que faço (fazia) com as outras, ponderando as normais condicionantes. Mas nada de loucuras, que já não tenho “tempo” para isso… na verdade, acho que nunca tive.
E é aí que reside a mudança. Fazer uma volta com a fixie, seja ela qual for, é normal, é natural. Já não é uma loucura, um sacrifício. É mais uma volta, só que mais emotiva e entusiasmante. Ok, eventualmente mais puxada também. Mas lá está, comprometi-me, portanto, já nem vejo as coisas assim.
Não quero provar nada a ninguém, até porque as opiniões dos outros são apenas isso e não me dizem respeito. Agora, cada saída, acaba por ser uma prova para mim mesmo. A prova que é possível fazer o que quiser com estas bicicletas…
Basta comprometer-me!

09.09.20

Atenção peões e ciclistas

E pessoas que leem blogues


Rui Pereira

Eu ia dizer “pessoas que leem o meu blogue” mas achei pretensioso…
Pretensiosa foi também a referência aos “peões e ciclistas”, para fazer ligação entre imagem e texto, e ser engraçado…

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Constatei que a minha ligação a este blogue é uma coisa muito forte!
Preguiçoso, desmotivado e sem saber o que escrever, por uma razão qualquer abro o blogue e sinto-me culpado e parvo por não lhe dar a devida atenção. Estúpido, ao ponto de saber o bem que me faz escrever e publicar sobre aquilo que mais gosto, e não o fazer!
Em parte, a culpa também é da Gaffe. Esta caríssima amiga que lhe deu uma imagem que nunca mais acaba! Que me obriga a manter-lhe vivo, mesmo quando a minha vontade era virar-lhe as costas. A identificação gerou um compromisso. Obrigado!
O orgulho, modéstia à parte, de reler alguns dos meus textos e continuar a acreditar plenamente nas razões que tiveram na base da sua conceção.
A felicidade por ter pessoas que continuam a deixar uma palavra, uma reação, mesmo quando as publicações que surgem primam pela falta de regularidade.
Este blogue é um bocado de mim. É o que queria ser e fazer…
Este blogue sou eu!

09.09.20

Encruzilhada!


Rui Pereira

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As decisões têm sempre consequências. E nem sempre são positivas. O que é chato. E talvez faça pensar duas vezes antes de tomar a próxima.
Em cima da bicicleta tento não pensar muito. Pelo menos em tomar decisões e em coisas más. Às vezes acontece e tento desviar o foco. As pedaladas são terapêuticas, mas não ao ponto de serem como que um divã de psicanálise.
Gosto de me focar no ambiente que me rodeia, nas sensações que o controlar da bicicleta me permite sentir ou simplesmente no ato de pedalar sem mais quaisquer compromissos.
Aprendi num livro que, na presença de um mau pensamento, devemos concentrar-nos na sua visualização e respetivo afastamento, até ser tão pequeno que acaba por desaparecer. Dá certo!
Lá vou eu pedalando estrada fora e, de repente, sou ensombrado por um daqueles pensamentos dispensáveis. Entre uma e outra pedalada, aplico a técnica do distanciamento do pensamento negativo, e lá vai ele!
Também evito pensar muito em trajetos a seguir. Ou já saio com a coisa esquematizada ou vou improvisando à maneira que vou avançando.
Este é um tempo de qualidade. Mesmo que o tempo esteja uma porcaria e o piso sujo, que me suja a bicicleta. Mesmo que esteja lixado com qualquer situação ou que tenha saído de casa meio contrariado.
Este é o tempo para esquecer isso, não é para pensar em coisas infelizes ou estar a tomar decisões, mesmo que tão simples relacionadas com o percurso. Cabeça leve, sentidos despertos, vontade e alguma disponibilidade física – a receita.
Encruzilhadas? Sigo em frente e logo se vê. Nem que, uns metros mais à frente, veja que se calhar não foi a opção mais inteligente e dou meia volta...
Se calhar peco por não seguir mais esta diretiva quando não estou em cima da bicicleta!

31.07.20

É tudo uma questão de aceitação e valorização!


Rui Pereira

A forma de lidar com as minhas bicicletas, hoje, está relacionada com algumas perdas do passado.
À ligação, que integra o gosto de ter, o uso, o cuidado e a contemplação, está associada a dificuldade da separação. Ou seja, algumas vezes equacionei uma possível troca ou venda de uma das minhas bicicletas, normalmente daquelas das quais estou mais afastado, mas nunca fui capaz de concretizar.
Anteriormente a minha ligação material fazia-se com as motas. Tal como as bicicletas, que integram o meu atual estilo de vida, antes eram as motas.
Quando supostamente atingi aquilo que sempre quis neste departamento, desvalorizei e dispersei o meu foco, ajudado pela mudança de circunstâncias, quando as motas deixaram de estar tão presentes. Não satisfeito com uma, dei duas cabeçadas! Na primeira, só me desfiz da melhor mota que tive e uma das melhores (para mim) das que tive oportunidade de experimentar.
Se durante muito tempo justificar cegamente estas ações ou tentar esquecer eram a minha prioridade, agora a aceitação é a opção. Até porque elas tiveram o seu propósito e proporcionarem-me bons momentos aos seus comandos foi um deles.
Não posso voltar atrás. Está feito!
Dificilmente conseguirei ter motas iguais. Paciência, hoje também não faria muito sentido. Enquanto as tive, vivi-as intensamente (se calhar demasiado) e usufruí delas como consegui (com os meus habituais constrangimentos). Foi (é) a minha forma de encarar as coisas. Aceito isso!
Claro que tudo aquilo que puder fazer para mudar e melhorar pessoalmente terá o meu maior empenho, por isso mesmo, aprendi. As asneiras cometidas ensinaram-me que decisões relacionadas com algo que nos diz tanto, tomadas de ânimo leve e até com alguma leviandade, podem trazer maus resultados. Aceitei isso!
Tal como as compras, normalmente tão pensadas, uma possível troca ou venda deve receber o mesmo tratamento. E se não me consigo desfazer de nenhuma das minhas bicicletas é porque elas têm o seu lugar, a sua função, o seu propósito. E porque gosto delas. Independentemente das suas caraterísticas e do seu valor de custo.
É tudo uma questão de aceitação e valorização!

A felicidade não é ter o que se quer, mas querer o que se tem.

(Este texto e respetiva citação surgiram da leitura do livro de Anette Herfkens,“Turbulência”)

17.07.20

O motor sou eu!


Rui Pereira

Falava com o meu amigo do costume sobre motas. Falava do meu irmão e como a troca de mota lhe fez outro. Pelo menos, parece, quando o vejo aos comandos da sua nova mota. A anterior, curiosamente aquela que sempre quis (quisemos!), já não lhe assentava. Agressiva, barulhenta, intimidante.
Percebo-lhe bem e acho que ele agora também me percebe, por exemplo, quando lhe falo do prazer que é pegar na minha bicicleta e desfrutar daqueles minutos sobre ela na minha pausa para almoço. De como se passa a encarar as deslocações, mesmo que pequenas, de outra forma. Nem sempre é preciso velocidade, barulho e adrenalina, mas apenas usufruir da fluidez de uma toada calma, do ambiente que nos rodeia, do balançar curva atrás de curva.
E percebo-lhe porque a minha mudança aconteceu de forma ainda mais radical, das motas para as bicicletas, e foi uma leveza.
Mais simplicidade, leveza e liberdade. Menos investimento, complexidade e intimidação!
Se deixei de gostar de motas? Não, não deixei. Se as motas são comparáveis às bicicletas? Não, não são. Mas é normal que tende a fazer um paralelismo entre umas e outras, até para me resolver interiormente e justificar a minha opção, já que pontualmente surge alguma ambiguidade…
Ganham as bicicletas. No conceito, na simplicidade, na limpeza, na eficiência. Ganham porque fazem toda a diferença.
Ganham, basicamente, porque o motor sou eu!

10.07.20

A derradeira oportunidade!


Rui Pereira

Ontem falei em perder oportunidades…
Devíamos estar algures no ano de 2009 (ou 2010?), quando, logo pela manhã, recebia uma chamada no telemóvel. Um familiar convidava-me para fazer parte de um negócio de bicicletas! Apercebendo-se do momento excecionalmente favorável e das boas condições que reunia, viu uma oportunidade para o efeito.
Eu vivia altamente entusiasmo com as bicicletas. Passava os dias úteis a planear e a ansiar pela volta de domingo e conseguia contagiar familiares e amigos a fazer-me companhia. Lia revistas, blogues e fóruns dedicados. Geria e alimentava o meu próprio blogue com grande entusiasmo e motivação. Munia-me de material e equipamento, modificava e personalizava a minha bicicleta.
A inesperada chamada apanhou-me de surpresa. Como uma pedra na linha de trajetória a meio de uma curva! Isso está mesmo a acontecer?!
Tinha regressado às bicicletas muito recentemente. Andava doido com tudo o que tinha rodas e pedais, e rolava. Vivia as bicicletas e sonhava com bicicletas! Abrir uma loja e trabalhar todos os dias naquilo que mais gostava já era um sonho, pois claro!
Os compromissos e os estudos recentemente retomados, o filho pequeno, as contas para pagar, mas principalmente o medo do desconhecido, do desafio, do não estar à altura do desafio, toldaram-me a visão. E em vez de ver uma oportunidade (única!) só conseguia ver que, obviamente, teria de sair da minha zona de conforto.
A mensagem foi clara e honesta, e até elogiosa para mim. Este familiar viu esta possibilidade com a minha presença e coordenação. E deixou a decisão nas minhas mãos. Se aceitasse o desafio, a ideia podia começar a rolar no sentido da sua concretização, se não, ficaria por isso mesmo.
Retraí-me. Tive medo! Concentrei-me nas dificuldades e em justificá-las. Justificando assim a minha própria decisão. Falei da concorrência, da dimensão do mercado, da localização…
Não aconteceu. Não estive à altura. Matei a ideia, literalmente!
Hoje, olho para trás e arrependo-me. Tinha de ter acreditado. Nem o meu enorme gosto foi suficiente para vencer o medo e o comodismo. As condições existentes dificilmente se repetirão. Se havia um momento certo, era aquele!
O meu familiar teve esta visão. Eu… logo eu... não!

09.07.20

Especialista em nada...


Rui Pereira

Sou especialista em nada. Nunca consegui trabalhar naquilo que realmente gostava. Passei anos a fugir da matemática. Formei-me tarde, opção baseada na disponibilidade e na exclusão de partes. Perdi oportunidades.
Nem sequer nas bicicletas tenho o à vontade que gostaria. Faço o básico, mas não me aventuro mais com receio de estragar. Mecanicamente falando.
Também não discuto. É chover no molhado. O meu exemplo, que não é exemplo nenhum, é pegar na bicicleta e pronto. É ir gerindo…

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Opiniões à parte, vou dedicar-me ao “estudo” deste livro. Pode ser que aprenda alguma coisa. Pelo menos diz respeito a algo que gosto e que me interessa substancialmente.


Fartei-me da formalidade. Do discurso feito, bonito de ouvir e difícil de sentir. Da distância que separa a teoria da realidade.
Mas continuo a ler. Menos. Mas leio.
As revistas deixaram de fazer sentido. Hoje, prefiro os livros. Sempre tive uma apetência pelo livro prático e técnico. Vou colecionando, a conta gotas, alguns livros de bicicletas.
A cidade, sinto-a diretamente aos comandos da minha bicicleta. O piso irregular, as rasantes dos automóveis, a onda de calor emanada pelo motor de um autocarro. A chuva e as manchas de combustível e lubrificante. As ciclovias. Os peões. Os estacionamentos específicos ou a ausência deles. Mas também o bom-senso e a cortesia de alguns automobilistas, os olhares das pessoas e até alguns sorrisos de aprovação.

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Pedir ciclovias só por pedir não é nada. Pedir ciclovias para os outros andarem também não. Mas a pedir e a haver que sejam dignas deste nome. Que sejam funcionais, que agilizem os trajetos às pessoas e que não sejam apenas para passear (de licra?) ao fim de semana. Que não sejam construídas sobre o mesmo princípio de sempre – as estradas são para os carros!
Esperar uma rede de ciclovias nas nossas pequenas cidades, desenhadas noutros tempos para outras realidades, com algumas vias onde até os carros têm dificuldade em passar, é uma utopia. Se tivesse à espera de ter ciclovias para andar de bicicleta nas “minhas” cidades, bem que podia vendê-las. Todas!