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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Eu e ela

Somos um só…
Em contacto através de três pontos,
Unidos pelo extremo inferior.
Num gesto rápido reduzo ligeiramente a desmultiplicação,
Ergo-me para vencer a inércia da inclinação desfavorável.
Mudança de cenário,
A gravidade está agora a nosso favor.
Curvado sobre ti,
Procuro a aerodinâmica.
Tenho o batimento acelerado,
E o nível de concentração elevado.
Estado de fluxo!
Somos um só…
Estamos a render o máximo,
O ar que se desloca rápido em nosso redor confirma.
Curvas, tantas curvas,
Alternando entre fluidas e sinuosas.
Ora giro frenético as tuas alavancas,
Sob pena de perdermos o ritmo,
Ora aperto os teus abrandadores,
Sob pena de perdermos a compostura.
Somos um só...
Oscilas com as irregularidades,
Mas és honesta.
Alargas ligeiramente a trajetória que pretendo seguir,
Mas és precisa.
Disfarças a falta de aderência da borracha no asfalto,
Mas sei que tens limites.
Não sei quais,
Mas testo-os…
Chega, chega!
Ergo o tronco,
Reposiciono as mãos sobre ti,
Estabilizo as alavancas,
Olho para trás.
Deixo a gravidade levar-nos.
Somos um só...
Rolas indiferente, como sempre.
Tu não sentes,
Mas provocas sentimentos.
Tu não ouves,
Mas digo-te na mesma:
Foi tão bom!


Nota: Às vezes tenho tendência para humanizar as minhas bicicletas, neste caso a Roubaix. Este texto refere-se a uma parte específica do percurso do Passeio de Natal de domingo, exatamente o final da subida de quem vem de Vila Franca e a sinuosa descida até à calçada da Lagoa das Furnas.

Ainda os travões…

Nunca falei e pensei tanto em travões como agora. E isso acontece porque experimentei uma bicicleta de estrada com travões de disco hidráulicos.
Já há alguns anos atrás, quando troquei a minha anterior BTT de travões de disco mecânicos pela atual com hidráulicos, o tema travagem veio ao de cima, embora menos do que agora.
O facto é que fiquei muito surpreendido com o comportamento exemplar dos discos - mordazes e progressivos quanto baste - o que se traduz em segurança, confiança e conforto.

 

travao_rival.jpg 


Entretanto tenho utilizado uns travões tradicionais, mas de qualidade mais elevada do que os que estava habituado a utilizar em estrada e a diferença não é tão grande como considerei inicialmente. Fui induzido a exagerar por ter uma base de referência limitada.
A diferença não é tão grande, mas existe. Os travões que equipam a minha nova bicicleta são bons e eficazes, embora estejam uns furos abaixo dos discos hidráulicos que experimentei. De qualquer maneira, sinto-me mais seguro e à vontade do que antes.
Como já referi noutra ocasião, a comprar uma bicicleta de estrada nova, os travões de disco hidráulicos seriam quase de certeza uma opção. Como não é o caso, fico-me pelo meu atual equipamento de travagem tradicional que também não compromete, sendo muito melhor do que tinha até agora.
Não sei se toda esta “preocupação” com a travagem será da idade ou não, mas uma ilação que tiro destas diferentes experiências e realidades é que talvez tenha arriscado demasiado nas descidas até agora. E percebo também porque é que tinha tanta tendência para cerrar os dentes!

BTT, sobe e desce...

Estes dois textos foram escritos isoladamente em 2013, numa altura em o BTT dominava as minhas saídas de bicicleta. Há meses que não ando de BTT, daí ter recuperado os textos em questão, que julgo refletirem algumas das sensações que se vivem nesta cativante vertente do ciclismo... Num verdadeiro estado de fluxo!

 

A subida!
Olho para o alto tentando vislumbrar o fim daquilo que tenho pela frente. As curvas impedem-me de o fazer. Acelero ligeiramente a pedalada. O polegar direito move-se rápido e repetidamente sobre a alavanca das velocidades, na tentativa de encontrar a desmultiplicação ideal. Flito os braços e aproximo, o mais que posso, o peito do avanço. Sinto o peso da inclinação nas pernas enquanto o tubo de selim range à maior pressão que exerço. Mesmo equipado com plataforma, o amortecedor não consegue esconder um oscilar ritmado do seu veio, ao contrário da forqueta que exibe todo o seu curso, só fletindo ligeiramente à passagem de alguma depressão mais acentuada. Ocasionalmente estes obstáculos fazem-me erguer do selim e acelerar a marcha. Logo volto à posição inicial já que a borracha traseira reclama a fraca aderência. Progrido lentamente no terreno acidentado escolhendo a melhor linha com pequenos golpes de guiador. A minha respiração é agora ofegante e bastante audível, como que a tentar acompanhar ou superar o ritmo da pedalada. Sinto o coração a bater aceleradamente. Tenho a corrente na posição central à frente e na posição mais elevada atrás. Não quero ceder, não posso ceder agora. Avisto o topo da subida, o que me faz aumentar a cadência numa tentativa de acabar rapidamente com o sofrimento. No topo, respiro fundo duas ou três vezes, de alívio e como forma de normalizar a respiração. Levo a mão à garrafa. Reduzo algumas velocidades e rolo lentamente em plano. Num esgar emito um sonoro – Caraças! (17/04/2013)

 

Porque o que sobe também desce... A descida!

Inicio a marcha por um trilho algo tortuoso. De pé, posiciono o meu corpo o mais à retaguarda possível, no limite dos meus membros. Revelo alguma apreensão e até receio, mas tento que não me turvem a visão e me estorvem a concentração. Ergo ligeiramente a cabeça e foco mais longe. Fico com uma visão mais ampla e preparado para poder antecipar algum movimento. É fácil cair na tentação de olhar apenas para o que se passa junto à roda dianteira. Estou tenso. Sinto o toque ritmado das folhas de conteiras molhadas, que me arrefecem as pernas. Ouço os pequenos galhos quebradiços cederem à minha passagem. Ouço as derivas da corrente de transmissão e o característico som dos pneus, enquanto, ora se afundam na lama, ora galgam pedras. Os meus dedos indicadores afagam os travões delicadamente, com ocasionais exceções onde a ação é mais incisiva, sob forma de conter o andamento. A forqueta denuncia o seu aturado trabalho. É notória a capacidade de perdoar a minha falta de perícia e hesitações do amortecimento total. E de digerir regos, pedras e buracos. Notória é também a forma como em determinadas situações a roda traseira parece ter vontade própria. Vontade de se erguer… no ar. Por sua vez, a mais delicada roda dianteira parece querer fugir debaixo de mim, o que me leva instintivamente a desencaixar o sapato do pedal e usá-lo como auxiliar, sob pena de perder a compostura, que é como quem diz, a posição vertical. Os pequenos sustos intercalam prazerosos momentos de velocidade, domínio e conforto. Fazer uma curva em apoio, sentir as rodas descolar do chão, controlar uma derrapagem mais prolongada, ultrapassar aquele obstáculo de uma forma muito mais simples e acessível do que era esperado. Com o final desta alucinante descida à vista, posiciono-me naquela que parece ser a melhor linha. Largo os travões e entrego-me ao deslizar da bicicleta. Com uma ligeira sensação de cansaço motivada pela concentração, a tensão dá lugar à satisfação. Desmonto e olho para trás, a perspetiva é diferente da inicial. É pena ser tão curta. Olho agora para o meu lado esquerdo. Lá está ela, a minha bicicleta. Encostada pelo guiador a um muro de pedra. Contrastando comigo, está impávida e serena como se não se tivesse passado nada. Como sempre! (18/04/2013)

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