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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

20.04.20

45 metros quadrados...


Rui Pereira

Não tenho tido vontade de escrever. Não tenho tido motivos para escrever. E com isso, nem vontade para vir aqui tenho tido.
A justificação típica da falta de tempo não se aplica. Nestes tempos que correm, tempo é coisa que não me falta.
Falta-me é vontade. A força necessária para dar a volta.
Eu que até sou um privilegiado. Que apenas me vi privado de liberdade, de fazer várias coisas essenciais ao meu equilíbrio.
Há quem esteja pior, muito pior…
No meio da inércia, os pensamentos advindos dos momentos de lucidez nem sempre são fáceis de por em prática.
Refugio-me atrás de ecrãs. Da televisão, do telemóvel, do computador…
Por momentos está tudo bem. Tudo dentro da normalidade. Não está!
Refugio-me numa das minhas bicicletas de carreto fixo. Nunca estivemos tão próximos… Pego nelas à vez, monto-lhes e ando às voltas sem parar…
Em 45 metros quadrados úteis, no quintal!

24.01.20

Descartar maus para colher bons!


Rui Pereira

Aos passeios dominicais de bicicleta juntam-se o mar e os exercícios localizados diários, que me permitem manter a forma física e o equilíbrio psicológico pretendidos. Neste sentido, a alimentação tem vindo a ser ajustada, quer em quantidade quer em qualidade, depois de uma época de alargamento das exceções. O descanso tem sido assegurado.
Os passeios de bicicleta têm ganho alguma dimensão, já que acordo mais cedo e tenho mantido uma interessante disciplina depois dos mesmos, no sentido em que não estou a deixar as minhas bicicletas sem cuidados, semana após semana, tal como acontecia anteriormente.
Pode parecer um contrassenso, mas ter excluído definitivamente o ginásio das minhas rotinas foi fundamental. Ao contrário de muitos, há algum tempo que deixei de ver os ginásios como essenciais para a prática de exercício físico. Assim, deixei de ter o que para mim já era uma obrigação, poupando simultaneamente dinheiro e tendo tempo livre para outras coisas, nem que seja estar sem fazer nada. Por exemplo, tenho aproveitado para intervir nas minhas bicicletas.
Mantenho a forma, mas acima de tudo estou muito mais equilibrado. Claro que quantidade não é qualidade, logo que estejam garantidos os mínimos para o efeito. E estão.
Mesmo que tudo à volta se esteja a desmoronar, e também por isso, é fundamental manter a prática, porque tenho de me agarrar a alguma coisa, portanto, que seja a algo natural, aconselhável e benéfico.
É o cansaço físico que me faz descansar mentalmente. As frustrações descarrego-as em cima de uma bicicleta com umas vigorosas pedaladas. E no chão, com umas centenas de flexões de braços!

31.10.19

Foi a bicicleta que me ensinou…


Rui Pereira

Ao comparar as fotografias da minha participação na mesma prova de bicicletas, com uma diferença de 9 anos entre si, constatei que ter adquirido e voltado a andar de bicicleta foi uma influência muito positiva, para implementar novos hábitos e mudar a minha perspetiva numa série de realidades pessoais.

Se é incontornável que hoje estou mais velho 9 anos, também é certo que me sinto melhor e considero estar com melhor aspeto.

Aprendi a comer, a exercitar-me, a valorizar aquilo que não alcançava, a fazer o que não achava exequível, a saber o que posso e não posso fazer, a deslocar-me, a libertar-me de preconceitos, a conhecer o meu corpo, atributos e respetivas limitações.

Foi a bicicleta que me ensinou…

Foi a bicicleta que me levou a pedalar mais vezes por semana, para ter outro à vontade no domingo. Foi a bicicleta que me levou a variar nos exercícios, a conhecer novas modalidades e a voltar a outras, entretanto esquecidas. Foi a bicicleta que me levou ao mar e aonde foi preciso. Foi a bicicleta que me ensinou que é possível fazer exercício fora de 4 paredes, na rua, na natureza. Foi a bicicleta que me alertou para a importância da hidratação e da alimentação. Foi a bicicleta que me ensinou que os hábitos tiram-se e põem-se. Foi a bicicleta que me despertou para a importância da gestão do esforço, da presença do desafio, mas também para descartá-lo se a sua dimensão assim o impor. Foi a bicicleta que me levou a ser mais aberto, curioso e a experimentar.

Foi a bicicleta que me levou a fazer muito mais do que apenas pedalar.

Foi a bicicleta que me ensinou. É a bicicleta que me ensina!

14.10.19

Ciclista profissional


Rui Pereira

- Ah, se tivessem dito mal de ti não vinhas para aqui falar nisso!

Muito provavelmente!

Não tenho uma profissão, tenho um trabalho. Um trabalho que nada tem a ver com a minha formação. Um trabalho não especializado que qualquer pessoa faria sem grandes problemas.
Não é o melhor trabalho, nem o que realmente gostaria de estar a fazer todos os dias, mas, o facto, é que preciso dele. E é por isso que tento focar-me nas suas coisas positivas.
Atenção que não tenho paciência para a importância relativamente recente, fortemente impulsionada pelas redes sociais, da gratidão e do positivismo exacerbados, mas, neste caso, a minha postura é mesmo essa, como forma de viver melhor o meu dia-a-dia.
Às vezes tenho de atender pessoas. Se as compensações intrínsecas nem sempre são suficientes agarro-me às externas. E as pessoas normalmente gostam de mim e algumas até têm a amabilidade de o dizer ou demonstrar.
Posso não gostar muito daquilo que faço, mas os outros não têm culpa disso!

- O amigo tem a minha arma!
- Eu tenho a sua arma?!
- Sim, tem a minha arma!
- E qual é a sua arma?
- É ser bem-educado!

20.05.19

Tranquilo


Rui Pereira

Tenho 43 anos e não é petulância dizer que estou numa das minhas melhores formas físicas de sempre. Essencialmente impera o equilíbrio! Melhor mesmo, só há cerca de 4 ou 5 anos atrás, quando complementava as pedaladas e a musculação com a corrida.
Infelizmente, uma lesão complicada no joelho esquerdo (fratura do menisco e rutura total do LCA) que em vez de intervencionar cirurgicamente optei por aprender a conviver, fez-me retroceder momentaneamente. E depois recuperar e ajustar-me.
Com a idade, revelam-se as mazelas e arrasta-se a recuperação, mas ao mesmo tempo o nosso conhecimento físico é mais amplo. Sei que não devo fazer certas coisas, porque o mais certo é que tenha de pagar a fatura, já que tenho plena noção da relação comportamentos/resultados. Sei relativizar.
Sei da importância do exercício físico para o meu bem-estar geral e, porque não dizê-lo, para o meu bom aspeto, tal como sei que, por mais que me exercite, sem cuidar da alimentação, nada feito! - 70% alimentação; 30% treino.
Não me interessam os resultados teóricos e os dados estatísticos. Não me interessam que tempos e distâncias faço a pedalar, nem que pesos consigo levantar. Faço o que gosto para me satisfazer, já que há muito ganhei o hábito de fazê-lo e procuro essencialmente o equilíbrio entre satisfação, bem-estar, saúde, qualidade de vida e bom aspeto!
Não vivo obcecado com isso, até porque já se atingiu um estágio de normalidade, que toda esta prática se traduz num estilo de vida. Tenho cuidados, não faço sacrifícios, e o prazer continua presente na minha vida, até porque é vivendo assim que o obtenho. E permito-me “errar” sempre que acho que o devo fazer.
As circunstâncias motivaram um regresso ao ginásio, mas a experiência diz-me que a melhor forma de praticar exercício físico é ao ar livre, é na natureza, e não numa sala cheia de aparelhos e pessoas a transpirar. 
A idade trouxe-me mais flexibilidade e tranquilidade na gestão de todo este processo. Há um mínimo aceitável, para não entrar numa espiral negativa, mas todo o resto faz-se de acordo com a minha vontade e o meu estado de espirito. Quando tem de ser feito faz-se, quando não tem… não tem!
Tranquilo.

12.03.18

Bicicletas – Conversas e considerações


Rui Pereira

Hoje a minha hora de almoço foi diferente. Praticamente toda ela a falar de bicicletas. Numa loja de bicicletas, à volta de uma bicicleta de enduro elétrica. Falamos de provas, de comportamentos dos ciclistas e dos automobilistas, de infelicidades, obrigações, de voltas e de bicicletas efetivamente.
A partilha de ideias, opiniões e experiências enriquece-nos e pode levar à reflexão e a encarar determinada situação de um ponto de vista que até então não era o nosso.

Resultantes destas mesmas conversas ficam algumas considerações.

- Embora muitos automobilistas ainda não considerem a presença das bicicletas na estrada, o facto é que se nota, de uma forma geral, uma alteração positiva nesse sentido;
- O facto de o quadro legal atual nos ser mais favorável, não quer dizer que tenhamos de o impor à força. Até porque, considerando a nossa posição de vulnerabilidade, trata-se de uma questão de preservação da nossa integridade física;
- Nós, ciclistas ou utilizadores das bicicletas, não devemos tratar os outros como não queremos ser tratados. É básico e a melhor forma de preservarmos a nossa imagem enquanto grupo ou comunidade, que se espera que seja maior a cada dia que passa;
- Ao contrário dos outros interlocutores continuo a ser da opinião que não faz sentido a obrigatoriedade do (tão falado) seguro para as bicicletas. A necessidade do seguro prende-se com a capacidade destrutiva do veículo e, por exemplo, um automóvel tem um potencial destrutivo muito, mas muito, superior ao de uma bicicleta. Numa eventualidade de que resultem danos a outros, dos quais somos responsáveis, teremos de os assumir como noutra situação qualquer;
- Também não concordo com a obrigatoriedade do capacete. A sua recomendação faz todo o sentido, claro, mas deve continuar a caber a cada um equacionar a sua utilização e o grau de risco a que podem estar sujeitos. Pessoalmente, não vejo necessidade de utilizar capacete nas minhas rotinas diárias com a bicicleta, ao contrário do que acontece nos meus passeios em estrada ou fora dela. Os estudos valem aquilo que valem, mas posso mencionar a propósito que se verificou uma quebra no uso da bicicleta após a implementação da obrigatoriedade do uso do capacete em determinados territórios. Outro estudo indica que os automobilistas perante ciclistas com capacete têm uma condução mais descuidada do que quando estão perante ciclistas sem este elemento de proteção;
- Encarar uma bicicleta como um veículo utilitário já tem, só por si, vários constrangimentos. Cultura, mentalidade, organização das cidades, meteorologia, vulnerabilidade, entre outros, portanto, impor-se ainda mais obstáculos à utilização da bicicleta é a receita certa para se persistir num modelo de mobilidade urbana obsoleto e insustentável, centrado no automóvel individual. Exatamente o que não se pretende;
- Eu, como os outros envolvidos na conversa, para além de ciclista (ou utilizador das bicicletas, já que às vezes acho presunçoso denominar-me de ciclista!) sou também automobilista e em qualquer um dos papéis privilegio o bom senso e condeno o chico-espertismo, tanto da minha parte como da parte dos outros. Mas também erro, não sou perfeito. Ah, como automobilista pago seguro, imposto de circulação, inspeção…, coisas que fazem sentido para os automóveis, não para as bicicletas!

Claro que também foi abordado o acontecimento trágico deste fim de semana, um acidente de viação que envolveu um veículo automóvel e uma bicicleta, tendo resultado na morte de um jovem ciclista. Muito triste e lamentável. Uma situação que deixou um clima de pesar e consternação no meio e não só, e que tendo em conta as circunstâncias e o local do sucedido, traz à consciência o pensamento de que podia ter acontecido a qualquer um de nós…

14.02.17

Equilíbrio sobre duas rodas


Rui Pereira

hotwalk.jpg

 

Sou um admirador confesso das bicicletas de equilíbrio, já que são a melhor forma de aprender a andar de bicicleta. Já falei várias vezes sobre elas, sendo que a minha referência dá pelo nome de Specialized Hotwalk, embora existam inúmeras marcas que apresentam propostas do conceito. Esta bicicleta, que permitiu ao meu filho uma aprendizagem rápida, natural e autónoma, anda lá por casa há cerca de 10 anos. E veio para ficar, já que não queremos desfazer-nos dela. O rapaz tem crescido e já tem outra adequada ao seu tamanho, mas o certo é que ainda anda com a pequena Hotwalk. É como se fosse uma espécie de transporte dentro de portas e veículo para manobras radicais. Ainda hoje reparei nela. Lá estava junto às maiores. É pequenina, mas tem uma grande presença!

 

2 anos de idade!

13.02.16

8 Considerações acerca dos benefícios da utilização da bicicleta


Rui Pereira

1- A bicicleta é o veículo mais eficiente jamais construído. Vale pela sua simplicidade e pela interação única com o homem. Ele próprio, o motor da bicicleta… Genial! 

 

2- Contraditoriamente, a nossa sociedade alimenta e alimenta-se da cultura do automóvel. Com todos os constrangimentos que isso acarreta. Basta olhar para a situação atual da maioria das nossas cidades! [Na verdade, não sei se são nossas (das pessoas) se são dos automóveis? - Interrogações minhas!]
Não tenho nada contra os carros, aliás, tenho um, só um, rafeiro, e facilita-me muito a vida (eu que nem moro na mesma cidade onde faço a minha vida…). O problema geral está na má utilização do automóvel, que peca por ser excessiva. E, tantas vezes, ridícula! Assim, os automóveis acabam por fomentar o nosso comodismo.

 

3- Para inverter esta tendência é necessário alterar mentalidades. Vamos deixar esta parvoíce de se achar que quem anda de bicicleta no dia-a-dia é porque não tem dinheiro para comprar um carro. Ou que as bicicletas só servem para a prática desportiva e para o lazer ao fim de semana. Ou ainda, que as bicicletas são apenas brinquedos para crianças! Vamos libertar-nos destes preconceitos, ok?

 

4- E já que falo nos mais novos, é para eles que vai a minha maior aposta. São eles que poderão ter uma palavra a dizer no futuro a este nível. E não é serem todos atletas na área do ciclismo. Alguns até poderão vir a ser, mas isso é irrelevante, para o caso. É sim, serem cidadãos conscientes, que entre outras coisas, sejam capazes de ver numa bicicleta a oportunidade para mudar coisas menos boas, contribuindo para o aumento da sua qualidade de vida e da dos outros! Sim, dos outros. Dar já é receber!

 

5- Há várias formas de introduzir uma bicicleta na vida de uma criança. Para mim, a melhor, é a bicicleta de equilíbrio. O ideal para iniciação. Não tem pedais, nem qualquer elemento de transmissão, nem mesmo travões. É o mais simples possível, a melhor aliada para aprender a andar de bicicleta. É intuitiva e permite aprender de forma rápida, natural, segura e autónoma.

 

6- Para além de contribuir para o desenvolvimento físico e mental, a bicicleta pode fazer surgir o gosto pela atividade física e pela sua prática ao ar livre. Algo cada vez mais importante e necessário nos nossos dias. 

 

7- Não desfazendo as atividades de lazer e de caráter desportivo, quando associamos a bicicleta ao lado mais funcional – locomoção e transporte, usufruímos em pleno da mesma. O que nos dá um retorno especialmente positivo. Como benefícios pessoais destaco: Melhor forma física e saúde; Maior interação social; Melhor disposição; Maior economia; Sensação incrível de liberdade. Como benefícios sociais: Menos congestionamento; Menos poluição (ao nível dos gases poluentes e do ruído).

 

8- Para além deste lado mais funcional e prático, a bicicleta tem também um lado romântico e poético ligado à sua cultura, que muito estimo. Imaginem este cenário (perfeito): Numa rua típica da cidade sem trânsito, uma bicicleta apoiada pelo guiador a uma parede, com um ramo de flores no seu cesto frontal, a permitir o encontro e a testemunhar o amor de um casal…

18.01.16

Sonho


Rui Pereira

Sonhei que éramos realmente livres
Sonhei que éramos todos iguais
Sonhei que nos preocupávamos uns com os outros
Sonhei que éramos humildes e gostávamos de aprender com os demais


Sonhei que vivíamos plenamente integrados na natureza que nos rodeia
Sonhei que tínhamos hábitos de vida saudáveis
Sonhei que tínhamos a preocupação ambiental que o mundo homenageia
Sonhei que vivíamos leves e despreocupados, com poucos bens materiais


Sonhei que mais do que querer comprar coisas, queríamos usá-las para além do virtual
Sonhei que éramos todos ricos independentemente daquilo que possuíamos
Sonhei que o proprietário de um BM ou de uma bicicleta usufruíam da mesma importância social
Sonhei que ninguém julgava que só andava a pé quem não tinha dinheiro para comprar um automóvel pessoal


Sonhei que nos deslocávamos diariamente sem recorrer unicamente ao automóvel
Sonhei que utilizávamos outros meios de transporte sem desculpas nem mitos
Sonhei que as cidades estruturavam-se não para receber tráfego, mas sim pessoas
Sonhei que os parques e os jardins, não os centros comerciais, eram os locais mais procurados em lazer, ficando ainda mais bonitos


E de repente... Acordei.