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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

14.04.16

A hierarquia das ruas


Rui Pereira

Fomos feitos para andar de bicicleta? Não, não fomos. Fomos feitos para andar (a pé), para correr. Mas a bicicleta é um veículo bastante simples, adaptável, natural e prático que pode facilitar-nos bastante a vida. De facto, as distâncias tornam-se mais curtas, fáceis e prazerosas de percorrer. Mas somos seres insatisfeitos (e comodistas e vaidosos e…) por natureza e na busca da facilidade, da comodidade, no campo da mobilidade urbana, a bicicleta ficou relegada para segundo plano (para não dizer terceiro ou quarto!)

Criou-se uma hierarquia, a hierarquia das ruas, onde começamos por andar a pé, passamos para a bicicleta, talvez para uma mota e com toda a certeza para o automóvel. Idealmente este percurso fica concluído nos nossos primeiros 18 anos de vida. Andar a pé e de bicicleta na base, e o automóvel no topo, sendo que no topo ainda existem os topos do topo, mas nem vale a pena entrar por aí. O facto é que ninguém quer estar na base, é desprestigiante e pouco valorizado socialmente.

Infelizmente, com a busca incessante pela facilidade, comodidade e estatuto social, atafulhamos as ruas das cidades, tornamos a progressão lenta, desgastante, entediante e cara. Descaracterizamos as cidades. Poluímos muito e a vários níveis. Isso faz com que seja cada vez mais premente uma mudança, um regresso às origens, um regresso à base da pirâmide de uma hierarquia que não devia existir!

Mas a hierarquia não se manifesta apenas na opção de escolha, ela exprime-se na partilha das vias, onde o maior e mais rápido tem a supremacia, ou seja, mais direitos do que os mais lentos e pequenos (leia-se peões e bicicletas). Toda a circulação não motorizada é encarada como um empecilho à circulação desenfreada, onde cada um julga ter mais direitos, legitimidade e pressa do que os demais. Muitas vezes, esta hierarquia impõe-se à força toda:
- Se hoje lhe fizer uma razia pode ser que amanhã pense duas vezes e não me esteja a atrapalhar aqui à frente.
Sim porque uma pessoa adulta e discreta anda de bicicleta só em passeio e fora das vias de circulação ou simplesmente não anda. Até porque a andar de bicicleta apanha-se chuva, para além de cansar e até fazer transpirar… Para quê quando temos carros?! Disparate!