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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

Abril

Comecei o mês de abril a pensar em motas e carros. Motas, porque depois de muito tempo sem andar numa a sério (scooters não contam) tive oportunidade de experimentar a Husqvarna, em versão Supermoto, do meu irmão. Até pensei que já nem sabia andar, mas não. Quem sabe nunca esquece - dizem. Carros, porque mais ou menos embalado pelo Azores Rallye andei pela internet a pesquisar muito pela palavra Abarth (sim, gosto da Fiat).
Já gostei muito de carros. Depois, muito de motas. Depois, reservei o muito para as bicicletas. Por tudo! Mas fica sempre qualquer coisa cá dentro, mal comparando, como fica da nossa primeira namorada, aquela colega especial da primária!
Abril surge com a primavera e os dias maiores, e isso é bom. Podia dizer que vou aproveitar para andar de bicicleta ao final do dia, nem que seja uma ou duas vezes, mas raramente ando de bicicleta durante a semana. Ando sempre durante o dia, nunca ao seu final, perceba-se. Mas sempre posso fazer outras coisas que a ausência do bom tempo e da luz solar impediam.
Abril trouxe consigo um considerável vento de norte e frio. Ao seu segundo dia fez-me inverter a marcha na bicicleta e voltar ao abrigo de um escritório, em vez de sujeitar o corpo ao ar e ao mar frios. Tinha quase meio caminho andado. É raro fazê-lo.
Emprega-se o conhecimento popular conforme nos dá mais jeito. Abril águas mil - não me dá jeito. Abril promete… Sol a atenuar a nortada e a fazer reluzir os cada vez mais escassos cromados da minha bicicleta, tomados pela corrosão provocada pelo impiedoso ar marítimo e pelas agruras dos invernos que abril vai, com certeza, fazer esquecer.

 

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Nunca mais parei de pedalar!

A minha primeira experiência de utilização da bicicleta como meio de transporte está a fazer sete anos, estávamos no início do mês de março do ano de 2012. Mas foi uma experiência única.
Mais tarde, no verão deste mesmo ano, comprava uma bicicleta dobrável com a intenção de por em prática, de forma mais duradoura, esta mesma experiência.
Frequentava um ginásio à hora de almoço e a ideia era fazer a deslocação de bicicleta, descartando assim o automóvel e o custo direto relativo ao pagamento do estacionamento.
Digamos que a experiência foi um pouco (muito) atribulada. Por falta de adaptação pessoal, já que tinha esta rotina demasiado ligada ao automóvel, e por alguma falta de sorte, pois os dias que escolhi para começar, foram dias de chuva!
A ida era mais pacífica e até animadora, já que não era raro chegar antes do meu colega que se deslocava de automóvel. Mas no regresso, com a temperatura corporal por normalizar e alguma ansiedade à mistura, chegava ao trabalho invariavelmente molhado, no caso, numa mistura de suor e água da chuva…
Como se não bastasse, o quadro da Órbita dobrável cedeu!
A bicicleta ficou encostada a aguardar solução ao abrigo da garantia e eu, muito convenientemente, voltei ao automóvel!
Alguns meses depois, o ginásio fecha e tive de arranjar uma nova solução. Mais simples, mais natural, mais alternativa. Desta, fazia parte a utilização da bicicleta para a deslocação, na qual empreendi os ensinamentos adquiridos anteriormente, não voltando a repetir os mesmos erros.
Esta rotina, entretanto, mudou ligeiramente. A bicicleta utilizada é outra, embora da mesma marca. A bicicleta está tão ligada a esta rotina, que fazê-la sem ela, não é a mesma coisa! Esta e outras, já que alarguei ao máximo a utilização desta minha ferramenta de uso diário.
Bom, o certo é que nunca mais parei de pedalar pela cidade!

Mais uma bicicleta, menos um carro!

Nas minhas incursões de bicicleta pela cidade raramente encontro pessoas a fazer o mesmo que eu. Mais facilmente me cruzo com alguém de licra e bicicleta a condizer, treinando ou simplesmente dando uma volta, do que alguém com uma bicicleta banal, com roupa “normal”, vindo ou indo para o emprego ou outro qualquer local associado à sua rotina diária.
Claro que não sou o único, mas de facto somos poucos, muito poucos…
Hoje, a minha Órbita Classic teve companhia no sítio do costume.
Mais uma bicicleta, mais uma Órbita. E mais saúde, exercício e boa disposição.
Menos um carro na estrada. E menos poluição, espaço ocupado e comodismo!

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Órbita de carga!

A Órbita Classic carrega comigo, e não só. É o meu meio de transporte preferencial para curtas deslocações em meio urbano e, com a sua bagageira, uma simples caixa de fruta em plástico, mostra-se ainda mais apta para as tarefas necessárias. À primeira vista parece ser algo limitada, mas na hora da verdade, esta caixa mostra uma capacidade de carga surpreendente, tanto ao nível do volume como do peso suportado.

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Esta minha Órbita, com a sua caixa, está sempre pronta para tudo!

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Regras para utilizar a bicicleta como meio de transporte!

1 – Determinação. E nem é preciso muita, basta não estar sempre a pensar nos inconvenientes e nas desvantagens, porque desta forma, todo e qualquer argumento, mesmo os mais insignificantes, vão servir de desculpa para não começar a pedalar. É começar já!

2 – Bicicleta. Qualquer bicicleta serve, mas claro que as citadinas e utilitárias serão mais adequadas. Acessórios como guarda-lamas e suportes de carga serão muito bem-vindos. Numa fase inicial não se justifica estar a fazer um grande investimento, pois poderá vir a revelar-se desadequado ou desnecessário mais tarde.

3 – Vestuário. Não são necessárias roupas específicas para ciclismo, basta algum critério na seleção das mesmas de acordo com a estação do ano e com as condições atmosféricas. Roupas frescas e respiráveis no verão, e casacos e calçado com caraterísticas impermeáveis no inverno serão sempre uma mais valia.

4 – Percurso. Depois de identificado o trajeto a percorrer é importante verificar as opções de percurso disponíveis para o fazer. Devem ser ponderados fatores como a inclinação e o tipo de piso das vias, entre outras caraterísticas. O trânsito. A existência de vias próprias para bicicletas. Um percurso mais longo, mas com caraterísticas mais amigáveis para a utilização da bicicleta, será sempre melhor opção.

5 – Adaptação. Aqui está uma palavra-chave! A involuntária por parte do nosso corpo, que com certeza vai reagir positivamente ao exercício motivado pela pedalada, ficando natural e progressivamente mais capaz. A voluntária, quando tratamos de toda a logística por forma a simplificar e facilitar a nossa vida sobre a bicicleta.

6 – Bom-senso. Andar no meio do tráfego automóvel com uma bicicleta pode ser algo intimidatório para muita gente. Não acho que seja excecionalmente perigoso, mas não deixa de ter alguns riscos. Não podemos controlar os comportamentos dos outros, mas podemos estar atentos e tentar prevê-los. Quanto aos nossos, calma, cuidado, bom-senso e assertividade!

7 – Motivação. Essencial mantê-la, principalmente no início, quando ainda estamos desconfortáveis com a mudança. Publicitar a nova prática perante amigos, familiares e colegas de trabalho e focar os pontos positivos da mesma, ajuda. Então “recrutar” alguém que partilhe este estilo de vida connosco! A partir do momento em que o novo hábito se estabelece e começamos a sentir todos os benefícios do mesmo, muito dificilmente voltaremos ao nosso anterior hábito correspondente à mobilidade.

 8 – Dificuldades. Vão existir sempre e é preciso estar preparado para as encarar da melhor forma possível. Algumas poderão vir a ser contornadas com o acumular dos quilómetros e da experiência, outras… bem, melhores dias virão!

Setembro sobre rodas!

Depois das férias é tempo de voltar às rotinas. De assentar. Setembro é o mês do regresso à atividade profissional, escolar, desportiva… No meu caso, é inclusive um período de reflexão que irá definir o que farei como atividade física daqui em diante. Não queria ter de estar a decidir sobre isso, já que tinha tudo tão equilibrado nos últimos anos – convívio/exercício/natureza, mas infelizmente vejo-me obrigado a fazê-lo. Independentemente da decisão, uma coisa é certa, a bicicleta mantém a função de meio de transporte.

A minha companheira de duas rodas associada às minhas rotinas diárias regressa finalmente ao ativo, depois de uma paragem forçada e consequente intervenção mecânica. Entretanto recorri à outra Órbita, a dobrável, e senti uma grande diferença. Foram poucos dias de utilização, mas que saudades da Classic. A Eurobici é uma bela bicicleta, mas demasiado limitada para a minha utilização. Em ambiente urbano já não me vejo em cima desta que foi a bicicleta com que dei as minhas primeiras pedaladas utilitárias.

O carro é velhinho e lembrou-se de reclamar alguma atenção. Às vezes esqueço-me que a manutenção automóvel é uma coisa chata, dispendiosa e que tem de ser feita. Vá lá que foi amigo e esperou que as férias acabassem… Por mim fazia uma boa parte da minha vida de bicicleta, mas, tendo em conta as circunstâncias, não é possível. Tenho esperança que um dia lá chegarei…

Hoje já sujei as mãos de graxa. Mas sujar a valer. Estava a fazer umas experiências com a transmissão da Classic quando a corrente saiu de onde devia estar e ficou engatada onde não devia. Ainda tentei remediar… tarde demais. Deu luta. Valeu-me a ajuda de um companheiro das bicicletas que passava no local. Cheguei mais tarde, com as mãos mais sujas e mais transpirado do que era suposto, mas cheguei.

Ontem apanhei chuva. Hoje que precisava de água para lavar as mãos não choveu.

E assim se vivem os primeiros dias do mês de setembro. Tudo sobre rodas...

Estacionamento para bicicletas em Ponta Delgada

Em 2015 a Câmara Municipal de Ponta Delgada instalou cerca 40 lugares de estacionamento para bicicletas em várias zonas da cidade. Uma excelente iniciativa, sem dúvida, mas na minha opinião tinha ficado esquecido um local prioritário como o Mercado da Graça! Na altura tive intenção de sugerir isso mesmo, mas nunca cheguei a fazê-lo (intenção sem ação, por melhor que seja, de pouco serve). O facto é que passados quase 3 anos, por determinação própria ou sugestão, foram finalmente disponibilizados estacionamentos para bicicletas junto ao Mercado da Graça. Se a instalação de estacionamentos para bicicletas junto às escolas anteriormente concretizada presume uma ação pedagógica e estratégica, agora é também possível ir a um mercado tão caraterístico desta cidade da forma mais natural possível (mais natural só a pé), sem ter de se deixar a bicicleta presa a um poste nas redondezas ou num dos estacionamentos demasiado distantes do local em causa.
De salientar que estamos a falar das estruturas mais adequadas para estacionar bicicletas, simples, económicas e robustas em U invertido, e que não foram remetidas a um canto, exatamente aquilo que se pretende!
Na altura em conversa com um amigo, também ele utilizador da bicicleta no dia-a-dia e defensor da existência de estacionamentos que não os “empena rodas” num canto escuro, mas reclamando mais algum sentido estético dos mesmos, divergimos opiniões. Se até aos tubos cinzentos de ferro foram subtraídos os autocolantes indicativos com bicicletas, para quê dar mais do que isso se (quase) ninguém quer saber? Para estes quanto mais passarem despercebidos melhor. O que interessa realmente a quem anda ou quer começar a andar de bicicleta na cidade é ter uma estrutura bem localizada e com a forma certa para poder estacionar com facilidade e segurança a sua bicicleta. Objetivo cumprido!

 

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Imagem: CC - Specialized

Vai para a ciclovia!

Foram-me relatadas buzinadelas… gritos… gesticulações agressivas!

Embora alguns automobilistas pensem o contrário, as vias onde existam faixas destinadas à circulação de velocípedes (ciclovias), não faz com que estes veículos estejam obrigados a circular nelas! O Artigo 78.º do Código de Estrada é esclarecedor:

“Quando existam pistas especialmente destinadas a animais ou veículos de certas espécies, o trânsito destes deve fazer-se preferencialmente por aquelas pistas.”

Sim, os utilizadores de bicicletas devem dar preferência a estas pistas especiais para a sua circulação, mas as coisas nem sempre são assim tão lineares e dependem das circunstâncias e do bom-senso. Não foi por acaso que se introduziu a palavra preferencialmente neste artigo na última revisão do Código da Estrada, em vigor desde 1 de janeiro de 2014.

Atente-se ao seguinte cenário como exemplo:
Domingo de manhã, dia agradável de sol e temperatura amena. Muitas pessoas e famílias aproveitam o dia de descanso e o bom tempo para atividades de lazer ao ar livre. Uns caminham, outros correm, outros ainda andam de bicicleta, de patins, de trotinetes. E fazem-no numa aprazível faixa litoral, com um passeio sobre o mar que engloba uma ciclovia. Um ciclista sai para a estrada para o seu habitual passeio matinal, equipado a rigor com a sua bicicleta de estrada. Ao atravessar a cidade opta por utilizar também a referida via. De notar que esta possui duas faixas de rodagem no mesmo sentido. Tendo em conta o facto de ser plana e com bom piso, mesmo imprimindo uma toada relativamente calma, uma bicicleta de estrada nestas circunstâncias vai circular sempre depressa demais para uma ciclovia, que nestas condições, terá inevitavelmente a presença de peões, tanto adultos como crianças.

Mas existem outros cenários e existem ciclovias que apenas pela sua conceção e localização são pouco apelativas à sua utilização, seja por conveniência, seja acima de tudo pela segurança, ou falta dela. Num mundo perfeito as ciclovias seriam irrepreensíveis na sua localização, nos acessos e dimensão. Não teriam a presença de peões e seriam em número suficiente, concebidas tanto para o lazer como para a utilização da bicicleta como meio de transporte diário. Estando nós muito longe dessa realidade, os automobilistas terão de se habituar à ideia de partilhar a estrada com outros veículos que não automóveis, fazendo-o com a naturalidade e o bom-senso que a situação impõe. Da mesma maneira, na falta de condições para o fazer numa ciclovia, os utilizadores de bicicletas deverão utilizar estas mesmas estradas de forma assertiva, preservando a sua segurança e minimizando possíveis efeitos negativos na fluidez do tráfego.

Velocidade de cruzeiro, ou não!

Segunda-feira, primeiro dia da última semana do mês. Um dia muito agitado na cidade de Ponta Delgada. Estavam quatro navios de cruzeiro atracados! Para uma cidade pequena, considerando todo o movimento inerente e o número de passageiros desembarcados, o congestionamento no trânsito foi um dos primeiros sinais de que algo fora do comum se passava. Isso se se estivesse muito distraído e não se reparasse na forte presença que estes barcos impõem.
Não sou grande adepto, confesso. Por isso vai ser difícil apanharam-me a tirar fotografias ou “selfies” com os ditos a servirem de pano de fundo. E também ainda não consegui perceber o real impacto da sua vinda, medindo os prós e os contras de forma rigorosa. Mas isso já é outra conversa…
Hoje, mais do que nunca, nem quero ouvir falar do carro, até porque já senti a lentidão do trânsito logo pela fresquinha, inevitavelmente. A bicicleta sim, faz todo o sentido, mesmo sabendo que terei de andar com especial atenção na ciclovia do costume por causa do anormal fluxo pedonal, situação que (já) não me chateia especialmente. Se quero que os automobilistas sejam compreensivos comigo também tenho de o ser com os peões. Faz parte.
Filas de trânsito automóvel compactas e a moverem-se a passo de caracol, em ambos os sentidos da marginal. O menor volume da bicicleta permite desenvencilhar-me da lenta progressão, mas com calma e cautela. Foi com agrado que vi alguns condutores facilitarem-me a passagem, o que agradeci com um baixar de cabeça. Também houve quem tentasse atrapalhar, mas este não merece destaque.
Com o recurso à bicicleta não tive de fazer nenhuma alteração especial à minha rotina diária. Já com o automóvel, as coisas foram um bocadinho diferentes…

Eu, ativista das bicicletas, não me confesso!

O meu ativismo em prol das bicicletas fica-se pelo exemplo. Quando subo para o seu selim e pedalo alegremente, mesmo com circunstâncias que nem sempre são as teoricamente propícias para o efeito. Não pretendo influenciar ninguém, nem tenho paciência para estar a envolver-me em conflitos com indignados, presos a paradigmas esgotados e insustentáveis, que não estão minimamente interessados em saber o que os outros têm para lhes dizer e que apenas conhecem uma verdade, a sua!
Se a minha redescoberta das bicicletas está a fazer uma década, a utilização como meio de transporte tem cerca de meia dúzia de anos. O início não foi fácil, ou não fosse eu mais um que implicava o automóvel em toda e qualquer rotina da minha vida, não conseguindo visualizar as coisas de outra forma. Continuo sendo automobilista, mas já dei o passo em frente. Aos poucos “cresci”, porque ao contrário do que comummente se pensa, a opção bicicleta é um avanço e não um retrocesso, e hoje já não vejo a minha vida sem ela. Ou melhor, sem elas. E quero-as, todas, cada vez mais presentes.
Tenho a minha visão e forma de encarar as bicicletas, como os outros terão a sua, mas pela minha experiência, acho um desperdício encará-las apenas nos departamentos desporto e lazer, e menos positiva a tendência para exacerbar a sofisticação e complexificação daquilo que é tão simples na sua essência. Mas lá está, cada um faça como mais lhe convier. Se calhar, também quem as vê sob outros prismas, ache um desperdício eu não aproveitar todo o lado de treino, desafio e competição que proporcionam. De uma forma ou de outra, qualquer relação com as bicicletas é sempre uma mais-valia.
Sou apenas um utilizador de bicicletas, que faz por aproveitar aquilo que elas proporcionam. Liberdade, conveniência, saúde, prazer…

Esta bicicleta não tem preço!

- Queres boleia?
- Não, obrigado. Vou de bicicleta!


Seja para fazer alguma volta ou simplesmente para ir ao treino e ao banho, o momento conta a partir do fechar da porta e do montar a bicicleta.
De bicicleta a deslocação não é uma mera necessidade, um mal necessário, mas sim um momento de liberdade e descontração. Um momento para espairecer a cabeça exercitando o corpo. Um momento leve, saudável, limpo e económico.
Às vezes perguntam-me quanto custou a bicicleta que uso em ambiente urbano. Não tenho problemas em falar de números, mas o que me apetecia responder era o seguinte:
- Esta bicicleta não tem preço!
E não tem preço porque não me é possível quantificar a conveniência, a satisfação e a qualidade de vida que me proporciona. E o quanto me divirto aos seus comandos!
Habituados que estamos a atribuir importância ao complexo e ao relevante, pode parecer um paradoxo fazê-lo a algo tão simples e modesto, mas não, não poderia fazer mais sentido. Pelo menos, para mim, faz todo o sentido!
Tenho outras, mais caras e sofisticadas, e também têm o seu propósito, nem que seja alimentar os meus caprichos. Mas a minha bicicleta urbana cumpre diariamente uma função que tem tanto de básica como de digna. Desloca-me e leva carga da forma mais simples, acessível e rápida, e simultaneamente proporciona-me uma sensação de bem-estar sem igual.

 

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Armado em ciclista? Toma!

A constatar as potencialidades da bicicleta nova, ia a rolar com alguma rapidez na minha segunda saída com ela. Sigo muito próximo do centro da minha faixa, pois a sua zona mais à direita apresenta-se cheia de irregularidades e suja, acabando limitada por muros de pedra.
De repente, recebo uma reclamadora buzinadela que surge de um automóvel velho que me ultrapassa. Audível era também o som do seu escape e a velocidade da manobra algo elevada. Mas o pior estava para vir…
O passageiro aproveita o facto de ter o vidro aberto até lá baixo, estica o braço para fora e eleva o dedo do meio da mão direita, logo seguido do já meu conhecido gesto do chega-te para lá!
A estrada em causa tinha pouco trânsito e nada constrangia uma normal manobra de ultrapassagem, tal como aconteceu. Mas o condutor e o passageiro daquela sonora viatura fizeram questão de deixar bem patente a sua indiscutível superioridade na estrada e legítima indignação, porque um gajo de bicicleta (de bicicleta, veja-se!), no mínimo parvo, mesmo não incomodando ninguém e dentro da legalidade, ousa aproximar-se do centro de uma faixa de rodagem, por forma a garantir a sua segurança!

Barcelona

É uma cidade espanhola com muitos atributos e atrativos, mas interessado que sou em mobilidade urbana (alternativa ao automóvel) e em bicicletas, Barcelona tem para mim todo um mundo paralelo de grande interesse, exatamente este aqui registado.

 

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É uma cidade grande e caótica, com muita população e turistas. Mas existem várias opções para facilitar a mobilidade de todos. E com estas, cada qual desenrasca-se da melhor maneira que pode.
Pelo que me foi permitido ver existe uma conjugação interessante entre vários meios de transporte. É normal ver gente de capacete de mota na mão, skate e trotinete a circular no metro, tal como ver bicicletas e respetivos utilizadores dentro das carruagens, até porque existem espaços específicos para o efeito.
Existem diversas zonas de acalmia de trânsito automóvel (30 km/h) com marcações no pavimento a alertar para o efeito e para a presença de bicicletas na via. E muitas ciclovias, 100 km no total.
Motas, essencialmente scooters ou aceleras, são ao pontapé. A circular, estacionadas, algumas até em locais que se calhar não deveriam.

 

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Outra forte presença é a da rede de bicicletas partilhadas – Viu BiCiNg – disponibilizada pela cidade. O número de estações é considerável, umas maiores do que outras dependendo da sua localização, tal como a quantidade de bicicletas que circulam. Estão por todo o lado, mesmo!

 

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As bicicletas comuns também. Existem diversos locais de estacionamento – os simples e adequados U’s invertidos – que nem sempre chegam para as necessidades ou não estão presentes nos locais desejados, portanto, ver bicicletas presas a outras quaisquer estruturas que o permitam, não será de estranhar.

 

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Muitas bicicletas citadinas ou adaptadas. Muitas clássicas. Muitas nacionais. Muitas bicicletas simples e baratas. Algumas “singlespeed” e “fixed gear”. Para quem as usa diariamente, em vez de querer impressionar interessa que passem despercebidas, até porque da maneira como são presas, deverá ser normal desaparecer bicicletas e/ou componentes ocasionalmente.

 

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Inúmeros pontos de aluguer de scooters, bicicletas, trotinetes, tanto tradicionais, como elétricas. Achei curiosos uns passeios organizados com guia, com uma marca e estilo de bicicleta específicos.

 

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Ponto de visita obrigatório – Barceloneta Bikes! É capaz de haver outras lojas de bicicletas interessantes, mas esta que foi a protagonista de um programa televisivo com o mesmo nome, no canal A&E (2015), ganhou uma notoriedade diferente. Depois é mesmo o meu estilo de loja! Forte componente urbana, belas máquinas, componentes e equipamentos, uma oficina típica e uma decoração rústica advinda da presença do tijolo e da madeira. Pessoal simpático que transparece gostar daquilo que faz.

 

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É esta a minha visão de Barcelona!

 

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De bicicleta, claro!

Fez recentemente cinco anos que tive a minha primeira experiência com a bicicleta como meio de transporte na cidade. Sem licras, sem encaixes, sem luvas e capacete. Simplesmente a roupa do dia-a-dia, eu e a bicicleta.
Tinha a minha Allez Steel há menos de um ano, quando aproveitei o facto do carro ir à revisão, para a integrar na minha rotina deste dia. E que belo dia fez, lembro-me perfeitamente.
Tal como me lembro das minhas primeiras pedaladas, onde o único peso que sentia era o da pasta que levava ao tiracolo. De facto, satisfação, leveza e até algum orgulho foi o que senti na altura!
Apesar dos sentimentos positivos, com as rotinas muito marcadas, a normal resistência à mudança e o comodismo, não passou de uma experiência única.
Alguns meses depois volto à carga e compro uma bicicleta dobrável para substituir o carro nas deslocações ridículas que fazia do trabalho para o ginásio e vice-versa, no intervalo para almoço. Entre outras. Não foi fácil. O estado do tempo pouco colaborativo e os processos por mecanizar faziam-me perder algum tempo e stressar um bocado, o que juntando à temperatura corporal por normalizar advinda do exercício (Cycling) fazia com que chegasse ao trabalho invariavelmente transpirado. Mas muito transpirado, mesmo. Outras vezes, cheguei molhado também por causa da chuva. Para rematar, com uma semana de utilização, a bicicleta acusa um problema técnico no quadro que comprometia a continuação do seu uso.
Entretanto o problema da bicicleta foi resolvido ao abrigo da garantia. Mas… desisti!
Passado mais de um ano e considerando uma situação que me era alheia - fecho do ginásio, tive de adaptar-me a uma nova realidade. Bem diz a sabedoria popular – “Há males que vêm por bem”. E assim foi. A minha Órbita dobrável sai do vão da escada para a mala do carro, onde passou a ser presença assídua. Não voltei a cometer os erros do passado, já que desta feita, preparei-me melhor para o efeito. Constrangimentos existem sempre e há que saber minimizá-los. Hábito implementado!
O carro continuava a fazer parte da rotina diária, por inerência das circunstâncias, mas deixei-me de deslocações ridículas com ele e a bicicleta marcava agora e definitivamente a sua presença.
Cerca de dois anos depois, a Órbita dobrável cede o seu lugar ao modelo Classic da mesma marca, mais adaptada que estava às necessidades. Mais espaço de carga, melhor ergonomia, maior capacidade de rolamento.
Ainda hoje preciso do carro, até porque vivo fora da cidade onde trabalho e para além de mim desloca mais duas pessoas diariamente, mas no geral a sua utilização fica-se por aí. As vantagens práticas de utilizar a bicicleta no dia-a-dia são largamente superiores aos constrangimentos. E acima de tudo, os níveis de prazer, liberdade e satisfação não têm qualquer comparação.

 

«Chega-te para lá que quero passar!»

Sexta-feira. Inicio de tarde. Céu azul. Temperatura amena. Trânsito calmo.
Depois de um momento de quebra de rotina, de exercitar o corpo e desanuviar a mente, venho fresco e leve, a pedalar ligeiro, a caminho de mais uma tarde de trabalho.
De repente, este tranquilo cenário é invadido por uma sonora buzinadela acompanhada por uma ultrapassagem que certamente não cumpriu a distância lateral regulamentar – um metro e meio – tal é a proximidade a que vejo o carro. Até aqui, nada a que já não esteja habituado. O pior é que o condutor da viatura, enquanto ultrapassava, faz questão de gesticular com a mão direita, como que a dizer: «Chega-te para lá que quero passar!»
Não sei se era pressa ou puro egoísmo de quem não suporta a ideia de ter outro tipo de transporte à sua frente na estrada?
Seja como for, no momento chateou-me a arrogância e o desprezo implícitos no gesto. Agora, simplesmente entristece…

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  180. O
  181. N
  182. D