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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

27.09.19

Eu penso, ela faz!


Rui Pereira

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Arranca à pressa para não ter de, mais uma vez, regressar quando já o sol se pôs. Os dias mais curtos não desmotivam a vontade de dar mais umas pedaladas. Mais do que a prática física em si, que acaba por ser limitada, está em causa aproveitar o dia da melhor forma possível e esperar que o vento que lhe bate na cara alivie também a carga negativa que traz consigo, após mais um dia de trabalho.
A mim, que tenho a mania da perfeição, irrita-me a leviandade com que lida com certas situações, mas depois, num breve momento introspetivo, admito que às vezes devia pensar menos e fazer mais, como ela.

23.09.19

Pode sempre ficar pior!


Rui Pereira

Saí tarde e a más horas. O orvalho caía ao sabor do vento. Comecei a subir para aquecer mais rapidamente. Apanhei vento de frente que me arrefeceu ainda mais. As rodas levavam a água ao seu moinho. Pedalava molhado, mas determinado. Media o pulso ao joelho. Como eu, o orvalho ora acelerava ora abrandava. Atirei a toalha ao chão. De regresso a casa. Subi. Passei o cruzamento e segui em frente. Estiquei o percurso. Voltei na rotunda. Voltei a esticar. Desci. Estiquei um pouco mais…

Já descalço posicionei a bicicleta suja no suporte. O vento fazia-se sentir. Ajustei a pressão da água. Mesmo assim, esta fez disparar a pistola da mangueira. Tinha agora uma cobra doida a cuspir água. Tentei correr pela garagem, descalço, numa sessão de equilibrismo sobre o mosaico encharcado. Fechei a torneira. Virei costas. Tremi... vi, impotente, a bicicleta… tombar! Caiu com estrondo...

21.05.19

Quando as diferenças são indiferentes


Rui Pereira

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As duas bicicletas aqui em causa são muito diferentes. Pelos conceitos apresentados, pelos materiais e equipamentos empregues, pelos valores envolvidos.
A proprietária da Btwin Triban 500, que se viu obrigada a comprar uma nova bicicleta depois da sua ter sido roubada, queria uma bicicleta prática, simples, robusta e acessível, que pudesse utilizar à vontade e levar para todo o lado. O proprietário da Specialized Roubaix Comp, já possuidor de uma bicicleta de estrada de inspiração clássica, comprou-a para satisfazer aquele desejo de ter mais uma bicicleta, mais moderna e específica, para usufruir de tudo o que isso implica.
O propósito principal de quem compra uma bicicleta será sempre pedalá-la, mas estas pedaladas poderão ter inúmeras necessidades e direções implícitas. A minha Roubaix é significativamente superior à Triban, mas será que fazia sentido a minha mulher ter algo igual ou equivalente quando os seus objetivos são tão claros e as suas necessidades tão básicas?
Não, não fazia sentido. Ela basicamente quer uma bicicleta que funcione e que a leve até onde as suas limitações pessoais permitirem, não as da bicicleta. Que não lhe exija cuidados, que a bicicleta é para andar. Se cair, caiu. E se está suja, suja fica, que é da maneira que passa ainda mais despercebida.
Fomos os dois, pela mesma estrada e até ao mesmo destino, cada um com a sua bicicleta e à sua maneira. E viemos. Função cumprida!

06.05.19

Bora!


Rui Pereira

- Bora c*****o!
- Bora!
- Bora!

Foi assim que fui brindado ontem no decorrer do meu habitual passeio de bicicleta!
Ia então já a caminho de casa, em carga e a um ritmo muito lento, devido à inclinação da via, quando sinto a aproximação de um automóvel. Normalmente penso – lá vem rasante! Não foi o caso. Lado a lado comigo, os seus dois ocupantes, mas principalmente o passageiro (braço fora da janela e mão a bater na porta), gritam-me, exuberantemente, as referidas palavras!
Não conheço os rapazes, mas agradeço o entusiasmo e a força. Tornaram mais leve e divertida o que faltava da subida!

11.04.19

Estrada!


Rui Pereira

De repente, sou assaltado por pensamentos que me afligem, como que por uma impulsão masoquista. Apoquentado, faço por me libertar e tento concentrar-me na pedalada.
Sinto o peso da inclinação da via nas pernas e socorro-me do manípulo direito para levar a corrente para uma posição superior. Um toque. Dois toques. Dou ainda um terceiro à procura daquele conforto que tardava em chegar.
A respiração ofegante faz-me erguer a cabeça…
Assim que olho em frente, numa autocensura instantânea, solto para dentro:
Deixa-te de merdas e aproveita!
O cenário que envolve a tira de asfalto onde me desloco é único!
Árvores de folha caduca, com os seus ramos despidos a ondular ao vento, marcam o fim da estrada, mas também o princípio de verdes pastagens de erva viçosa. Lá mais ao fundo, o verde ganha outra tonalidade. As volumosas árvores, ao contrário das primeiras, mantêm toda a sua integridade. Num último patamar, as imponentes montanhas deixam-se vislumbrar por entre a neblina. Tudo isso envolto num sereno ambiente sonoro, entre o canto dos pássaros e o peculiar som da vegetação, ao ritmo da ligeira e fresca brisa que se faz sentir.
Pedalar numa estrada onde nos é permitido usufruir desta ambiência é um privilégio. E nem sempre valorizamos isso. Seja pelo hábito e por a darmos por algo adquirido, seja por levarmos demasiada bagagem na mente. Ou simplesmente porque temos o foco no destino e esta estrada, e respetivo cenário circundante, não serem mais do que um meio para atingir o fim.
Deixo as aflições que me assombravam a mente. Esqueço as dores associadas ao esforço físico. Às vezes, basta tão pouco para nos sentirmos bem. Uma bicicleta, uma estrada… e toda a sua envolvência!

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02.04.19

Pedalando...


Rui Pereira

É aos seus comandos que estou bem. Com os sentidos despertos, mas tranquilo. A usufruir da estrada e do ambiente que a envolve. Sou o seu passageiro, mas também o seu motor. É a minha força física e o movimento contínuo da pedalada que a impulsiona para a frente. Ouço as árvores agitadas pelo vento, os pássaros, o caraterístico roçar da borracha sobre o asfalto. Somos só nós os dois. Eu e ela. Mas ao mesmo tempo, sou só eu. A pedalar. Só, apenas com os meus pensamentos.

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