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Bike Azores

A visão de um ciclista açoriano sobre as bicicletas e o ciclismo.

23.07.19

Se todas as vezes que ando de bicicleta pensasse que ia levar com um carro em cima…


Rui Pereira

Cedo habituei-me a empenhar uma condução defensiva. Tal como ganhei algum à vontade em circular nas e entre as filas de trânsito. A mota a isso obrigava.
Foram aprendizagens positivas e importantes e, de imediato, aplicadas na condução das bicicletas.
De facto, circular num meio de locomoção suave entre as ciclovias e as estradas, algures no meio dos peões e dos automóveis, obriga a alguma ginástica mental e a uma capacidade de análise de comportamentos, no sentido de prever os movimentos dos primeiros e as possíveis manobras dos segundos.
Mesmo assim, existem sempre surpresas.
Surpresas também da parte de quem vai sobre os pedais. Pelo menos para mim. E não estou a falar de comportamentos arriscados e fora da lei, embora na verdade alguns também o sejam. Falo de excesso de zelo e de cuidados. Desde logo encarando a bicicleta como um objeto perigoso. De ter um medo excessivo de circular na estrada, vendo perigo em tudo e todos.
Circular em bicicletas desajustadas ao nível ergonómico; circular demasiado junto às bermas, ou pior, pelos passeios; circular em contramão; circular a velocidades demasiadamente reduzidas, são alguns exemplos.
Estes comportamentos são bem capazes de serem mais perigosos do que os supostos perigos que teoricamente se estão a evitar.
Atenção, a estrada é um ambiente perigoso e quanto mais movimentada pior. Mas circular constantemente com medo e estar sempre a pensar nos perigos, e que algo de mau pode acontecer, não é a melhor forma de evitá-lo. Aliás, é a pior.
Circular numa estrada de bicicleta requer atenção e cuidado. Estar alerta. Mas também saber marcar a nossa presença, com um posicionamento e velocidade adequados às condições.
Se todas as vezes que ando de bicicleta pensasse que ia levar com um carro em cima… Já não andava de bicicleta!

22.07.19

Bicicletas a quem não quer pedalar


Rui Pereira

Vejo miúdos, em bicicletas que são autênticas carroças e de tamanho completamente desajustado para o seu, a fazerem coisas incríveis e a pedalar com uma vontade e alegria dignas de registo. E depois vejo outros miúdos, como o meu, que têm bicicletas muito razoáveis e com todas as condições, e não as querem pedalar porque não se estão para cansar escusadamente…

Nozes a quem não tem dentes, bicicletas a quem não quer pedalar!

bikes_costanova.jpg

17.07.19

Equipado da cabeça aos pés


Rui Pereira

Irritam-me um bocadinho as pessoas que acham que para andar de bicicleta precisam de se equipar da cabeça aos pés, principalmente se vão apenas dar uma voltinha em lazer ou fazer uma deslocação rotineira pela cidade. Parece que vão para uma linha de combate, sem noção que a licra e os corta-vento, entre outros adereços, não são exatamente à prova de bala!
Também acho piada às capas de gel para o selim. Rabinhos sensíveis, certo? A relação do rabo com o selim é… bom, requer hábito! É isso. Sensíveis são todos, até porque se a duração vai para além do que é normal, mesmo para um rabo habituado a estas andanças, é normal que se ressinta. Coincidentemente muitas das pessoas que as usam são as mesmas que vão de bicicleta equipadas para a linha de combate!
A criação de necessidades escusadas, nas quais algumas pessoas embarcam, têm três grandes problemas associados. Gastar dinheiro e acumular objetos desnecessariamente, quando um pouco de determinação e paciência resolveriam a situação facilmente. E complicar aquilo que é simples!
A presença da bicicleta nas minhas deslocações levou-me a optar por um estilo de roupa mais leve, prático e descontraído. Não deixou de ser uma alteração na minha maneira de vestir, mas que fiz voluntariamente, por me facilitar a vida e fazer sentir muito mais confortável. Na realidade, andei equivocado durante algum tempo, já que agora estou em condições de dizer que, a forma como me visto, motivada pela presença das bicicletas, reflete muito mais o meu estilo e aquilo que sou.

09.07.19

"O senhor é barra!"


Rui Pereira

Pausa para almoço. Estava a chegar ao local do costume para mais uma sessão de exercício, quando sou brindado com um elogio por um miúdo que lá estava:

- O senhor é barra!
- Hein?
- O senhor é barra!
- Ah… Mais ou menos! (risos)

No mesmo local, interrompi a referida sessão para ir ver a bicicleta nova de uma amiga que finalmente concretizou o seu objetivo. Ao tempo que me abordava sobre o tema! Foi a sua estreia. A bicicleta escolhida foi uma simples dobrável, acima de tudo pela facilidade com que se transporta na mala do carro e se arruma em qualquer local.
Já de regresso, aos comandos da minha Órbita, cruzo-me com uma desconhecida que também seguia de bicicleta. Aliás, andava calmamente a desfrutar da bicicleta para cá e para lá.
Em ambos os casos, mesmo com os possíveis constrangimentos associados, perfeitamente normais, as suas caras espelhavam a satisfação, a liberdade, a realização e o orgulho que sentiam. Reconheço logo, até porque não raras as vezes também o sinto. Ainda o sinto. E sei que também consigo transparecer isso mesmo.

26.06.19

Estado de graça


Rui Pereira

A mudança de imagem do blogue trouxe consigo uma série de coisas positivas. Ficou muito mais apelativo esteticamente e ganhou visibilidade. Mas acima de tudo, deu-me alento e motivação, o que se traduz em mais, e quero acreditar, melhores publicações. O facto é que ando mais desperto e com mais ideias, tanto para a escrita como para a captação de imagens. São situações que estão todas interligadas e revelam toda uma nova dinâmica. Diz-me a experiência que este estado não vai durar para sempre, que é cíclico, mas enquanto durar…
Novas circunstâncias também permitem-me andar de bicicleta mais vezes, para além do habitual passeio de domingo. Tenho aproveitado da melhor maneira, em vez de desperdiçar as oportunidades, algo que tenho alguma tendência para fazer, admito.
Para além disso, tenho variado bastante de bicicleta nas minhas voltas. Elas estão todas aptas e recomendam-se, como eu gosto, o que nem sempre acontecia anteriormente. E deu-me muito gozo avançar, finalmente, com a desejada alteração na minha fixed-gear. Um componente que encontrei quando já não contava e que resultou melhor do que estava à espera.

20.06.19

Seis!


Rui Pereira

Sem e com mudanças, muitas ou poucas.
Fáceis ou difíceis, mais dóceis ou agressivas.
De aço, alumínio e carbono, mais leves ou pesadas.
Valores divergentes, sensações atestadas.
Diferentes caraterísticas, todas elas bonitas.
Para apreciar estaticamente, prazer em movimento.
Seis, o número que somo, mas não aquele que quis.
Não queria nada, apenas pedalar…

18.06.19

De trás para a frente!


Rui Pereira

Preso a preconceitos limitados, previsíveis, limitadores.
Agarrado a ideias castradoras e inibidoras da visão.
Base comodista e consumista, focado nas coisas triviais, atribuindo-lhes destaque.
Vida pequena e vazia. Efémera. Olhos nos pés e no chão.
Iludido, não vê a realidade. Cego pela sua verdade.
Um dia, compra uma bicicleta. Acorda. Alarga horizontes.
Muda de rumo, num claro regresso às origens. Ao simples, ao básico.
Reencontra a sua terra. A natureza. As tradições. Vê o mar.
Pedala. Anda a pé. E valoriza.
Liberta-se da ideia quadrada do exercício entre paredes.
De um complexo processo de busca e aquisição de artefactos e suplementos.
Compra outras bicicletas, naturalmente.
Compras amadurecidas, sem impulso nem acaso. Isentas de exacerbadas pressões de satisfação imediata.
Usa. Aproveita. Desfruta.
Desperta para a importância de um simples rascunhar à mão, com papel e caneta.
Ganha consciência. Pessoal e ecológica. Vê para além do que achava suposto. Cresce!

O paradoxo da sua evolução reside na consciência de que as coisas são efémeras e ilusórias, às quais não deve ser atribuído o papel principal. Mas foram as bicicletas, também elas coisas, que lhe despertaram para uma nova realidade, que lhe abriram portas para todo um novo mundo de possibilidades. Mais adequadas, prementes, simples, melhores.

Não falo de mim. Falo de um amigo de um amigo meu.